É justamente contra esse impulso que o Evangelho nos convida a lutar.
No capítulo XII de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec reúne ensinamentos que representam um dos aspectos mais difíceis da moral cristã. O próprio capítulo começa com a seção “Retribuir o mal com o bem” e, mais adiante, nas Instruções dos Espíritos, apresenta a mensagem “A vingança”, assinada por Jules Olivier, Paris, 1862.
Jesus e a resposta ao mal
Jesus ensinou:
“Amai os vossos inimigos [...] fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem.”
(Mateus 5:44)
É uma proposta profundamente diferente da lógica comum das relações humanas.
Gostamos de quem gosta de nós. Tratamos bem quem nos trata bem. Agradecemos àquele que nos ajuda. Até aí, quase não existe esforço moral. O verdadeiro desafio começa quando recebemos hostilidade e precisamos decidir o que faremos com ela.
A orientação de Jesus não significa que devamos considerar correto aquilo que é errado, permitir abusos ou desistir do direito de nos defender. Kardec esclarece, ao comentar o ensinamento de apresentar a outra face, que Jesus não pretendeu impedir toda defesa; o alvo de sua condenação era a vingança, isto é, a disposição de devolver deliberadamente o sofrimento recebido.
Existe, portanto, uma diferença fundamental entre buscar justiça e buscar vingança.
A justiça procura impedir que o mal continue, proteger quem foi prejudicado e, quando necessário, estabelecer consequências. A vingança deseja que o outro sofra porque nós sofremos.
Uma procura corrigir.
A outra procura ferir.
“A vingança”, segundo O Evangelho segundo o Espiritismo
Na mensagem inserida por Kardec no item 9 do capítulo XII, Jules Olivier apresenta a vingança como um remanescente de costumes bárbaros e como sinal do atraso moral daqueles que ainda se deixam dominar por esse sentimento. A mensagem afirma claramente que vingar-se é incompatível com o ensinamento do Cristo sobre o perdão aos inimigos.
Esse ensinamento complementa perfeitamente a proposta apresentada no início do mesmo capítulo: retribuir o mal com o bem.
Não se trata simplesmente de permanecer calado.
Também não significa fingir que não fomos magoados.
Muito menos significa manter proximidade com uma pessoa que continua nos fazendo mal.
Retribuir o mal com o bem significa interromper em nós a corrente do mal.
Alguém nos ofende. Podemos devolver outra ofensa.
Alguém espalha uma mentira. Podemos espalhar outra.
Alguém nos prejudica. Podemos procurar uma oportunidade para prejudicá-lo também.
Quando fazemos isso, o mal que chegou até nós não terminou: encontrou em nós um novo instrumento para continuar circulando.
O ensinamento do Cristo propõe exatamente o contrário.
O mal chega até nós — e em nós deve encontrar um limite.
É nesse sentido que a orientação de Jesus se aproxima extraordinariamente da recomendação apresentada posteriormente pelo apóstolo Paulo:
“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
(Romanos 12:21)
Responder ao mal com o bem não transforma automaticamente a pessoa que nos ofendeu. Mas começa transformando aquele que escolheu não devolver a ofensa.
E essa transformação é essencialmente espiritual.
Perdoar não é aprovar
Há uma confusão comum quando se fala em perdão.
Perdoar não significa dizer que uma injustiça foi correta.
Uma pessoa pode perdoar e, ao mesmo tempo, estabelecer limites. Pode perdoar e procurar a Justiça. Pode perdoar e encerrar uma convivência prejudicial. Pode perdoar e tomar providências para impedir que determinada atitude se repita.
O que o perdão procura retirar do coração é o desejo de vingança.
Podemos dizer:
“O que você fez foi errado e não permitirei que aconteça novamente.”
Isso é diferente de pensar:
“Agora vou fazer você sofrer como eu sofri.”
A primeira atitude estabelece um limite.
A segunda alimenta a vingança.
Para o Espiritismo, essa diferença é especialmente importante porque nossas atitudes não dizem respeito somente ao outro: elas também participam de nossa própria educação espiritual.
Cada conflito pode, portanto, transformar-se numa escolha.
Reproduziremos o comportamento que condenamos?
Ou seremos capazes de agir de maneira diferente?
Três exemplos no cotidiano
1. No ambiente de trabalho
Imagine que um colega faça um comentário injusto sobre você diante de outras pessoas. A vontade imediata pode ser procurar algum erro dele e expô-lo na primeira oportunidade.
Retribuir o mal com o bem não significa aceitar passivamente a acusação. Você pode esclarecer os fatos, conversar com o colega ou procurar a chefia, se necessário.
O que muda é a intenção: em vez de tentar humilhá-lo, você procura resolver o problema sem criar uma nova ofensa.
O bem, nesse caso, manifesta-se por meio da firmeza sem crueldade.
2. Nas redes sociais
Alguém publica um comentário agressivo em uma postagem sua.
É fácil responder no mesmo tom — e talvez até reunir amigos para atacar aquela pessoa.
Mas existe outra possibilidade: responder educadamente, esclarecer aquilo que precisa ser esclarecido e, caso a agressão continue, encerrar a discussão ou utilizar os mecanismos de bloqueio e denúncia disponíveis.
Não devolver a agressão não significa perder uma discussão. Às vezes significa simplesmente não permitir que outra pessoa escolha por nós o tipo de pessoa que seremos naquele momento.
3. Dentro da família
Uma palavra dita por alguém da família pode machucar profundamente. E justamente porque conhecemos muito bem aquelas pessoas, sabemos também quais palavras poderiam feri-las de volta.
A vingança aproveitaria esse conhecimento.
O Evangelho propõe outra escolha.
Podemos dizer que fomos magoados, explicar aquilo que consideramos inadequado e até nos afastar por algum tempo, se necessário. Mas escolher deliberadamente não atingir o ponto fraco do outro já é uma forma concreta de vencer o impulso da vingança.
Às vezes, pagar o mal com o bem começa simplesmente em não acrescentar uma nova ferida àquela que já existe.
Conclusão: onde termina a corrente do mal?
Talvez seja fácil admirar o ensinamento de Jesus quando o encontramos nas páginas do Evangelho. Difícil é recordá-lo no instante em que alguém fere nosso orgulho, prejudica nossos interesses ou nos dirige uma palavra injusta.
É justamente aí que começa sua aplicação.
O Espiritismo não nos pede que deixemos de sentir imediatamente a mágoa. Somos seres em processo de aperfeiçoamento, e determinadas feridas precisam de tempo para cicatrizar. O convite é para que não transformemos essa dor em instrumento de uma nova dor.
A vingança diz:
“Você me fez sofrer; agora sofrerá também.”
O Evangelho pergunta:
“O sofrimento precisa continuar?”
Retribuir o mal com o bem é escolher que não.
É interromper a corrente.
É compreender que a verdadeira vitória não acontece quando conseguimos derrotar aquele que considerávamos nosso inimigo, mas quando conseguimos impedir que o comportamento dele desperte em nós aquilo que também precisaríamos combater.
Por isso, amar os inimigos talvez não comece com um sentimento extraordinário de afeição.
Pode começar de maneira muito mais simples — e muito mais difícil:
recusar-se a odiar, renunciar à vingança e escolher não devolver ao mundo o mal que um dia chegou até nós.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, especialmente versículos 43–48; Evangelho segundo Lucas, capítulo 6, especialmente versículos 27–36; Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículos 17–21.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”. Seções “Retribuir o mal com o bem”, itens 1 a 4; “Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra”, itens 7 e 8; e “Instruções dos Espíritos — A vingança”, item 9.
OLIVIER, Jules (Espírito). “A vingança”. Paris, 1862. In: KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, item 9.


