Mas há um modo ainda mais elevado de perdoar: o perdão por indulgência.
A indulgência, conforme ensina O Evangelho Segundo o Espiritismo, não consiste em fingir que o erro não existiu, nem em chamar de certo aquilo que foi errado. Ela é uma postura interior de compreensão, mansidão e misericórdia diante das imperfeições humanas. É a capacidade de olhar para a falha do outro sem pressa de condenar, sem prazer em expor, sem desejo de ferir de volta.
Quando alguém perdoa apenas para se libertar do próprio sofrimento, o foco ainda está muito em si mesmo. É como se dissesse: “Preciso soltar isso, porque essa dor está me fazendo mal.” Isso já é bom. Isso já é saudável. Isso já representa amadurecimento.
Mas, quando alguém perdoa por indulgência, o coração vai além. Já não pensa somente: “Quero me sentir melhor.” Passa a pensar também: “O outro errou, mas continua sendo um ser humano em processo, como eu. Também tenho minhas quedas, também preciso de compreensão, também não gostaria de ser reduzido aos meus piores momentos.”
É nesse ponto que a indulgência se mostra um degrau acima.
Ela torna o perdão mais nobre, porque não nasce só da necessidade de aliviar a própria dor, mas também da disposição sincera de tratar a fragilidade alheia com caridade moral. A pessoa não apenas tira dos ombros a mala da mágoa; ela decide não colocar sobre o outro o peso esmagador de um julgamento impiedoso.
A mensagem “A Indulgência”, no capítulo X de O Evangelho Segundo o Espiritismo, é muito clara ao nos convidar a sermos severos para conosco e indulgentes para com os outros. Essa orientação é profundamente transformadora, porque inverte uma tendência muito comum em nós: desculpar a nós mesmos com facilidade e julgar o próximo com rigor. A indulgência pede justamente o contrário. Ela nos ensina a reconhecer nossas próprias limitações e, por isso mesmo, a agir com mais brandura diante das imperfeições alheias.
Perdoar por indulgência, portanto, é mais do que buscar paz interior. É exercitar fraternidade. É compreender que ninguém acerta sempre, que todos estamos aprendendo, e que a misericórdia é parte indispensável da convivência humana. Esse tipo de perdão não apaga a responsabilidade de quem errou, mas impede que o erro se transforme em sentença eterna.
Há, nisso, uma beleza espiritual muito grande. Porque o perdão por alívio pessoal é como abrir a mão para deixar cair uma pedra que já estava pesando demais. Já o perdão por indulgência é abrir a mão e, ao mesmo tempo, abrir o coração. É deixar cair a pedra sem atirá-la de volta em ninguém.
Num mundo em que tantas pessoas se vigiam, se expõem e se condenam mutuamente, a indulgência aparece como uma forma silenciosa de caridade. Ela não faz barulho, não humilha, não alimenta a roda da acusação. Ela compreende sem ser conivente, corrige sem crueldade e perdoa sem orgulho.
Por isso, pode-se dizer que perdoar por indulgência está, sim, um degrau acima de perdoar apenas para livrar-se do peso da mala. O primeiro gesto nos alivia; o segundo nos ilumina. Um nos ajuda a sofrer menos. O outro nos ajuda a amar melhor.
E, no fim das contas, talvez seja esse o convite do Evangelho: não apenas soltar as dores que nos prendem, mas aprender a olhar o próximo com a mesma misericórdia que, um dia, também esperamos receber.
Referências bibliográficas
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. X – “Bem-aventurados os que são misericordiosos”. Item 17 – “A indulgência”.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: FEB.
Texto e imagem produzidos com inteligência artificial. Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.