terça-feira, 15 de setembro de 2026

DUELOS DE ONTEM E DE HOJE - Dos duelos de espada aos duelos nas redes sociais

Durante muitos séculos, homens que se julgavam ofendidos desafiavam seus adversários para duelos. Espadas e armas de fogo eram usadas para defender aquilo que chamavam de honra. Bastava uma palavra considerada ofensiva, uma acusação ou uma humilhação pública para que duas pessoas colocassem a própria vida em risco.
Com o avanço das leis e o abrandamento dos costumes, essa prática foi desaparecendo. Entretanto, será que o espírito do duelo também desapareceu?
Mudaram as armas, mas nem sempre mudaram os sentimentos
Hoje, raramente alguém desafia outra pessoa para um combate com espadas ou pistolas. Os duelos modernos acontecem, muitas vezes, diante das telas dos celulares.
As armas agora podem ser palavras agressivas, comentários maldosos, vídeos de resposta, indiretas, exposições públicas, montagens, acusações e campanhas de cancelamento. Em vez de testemunhas reunidas em um campo, temos centenas ou milhares de espectadores acompanhando a discussão, compartilhando as ofensas e escolhendo um dos lados.
Uma pessoa publica uma crítica. A outra responde. A primeira publica uma réplica ainda mais dura. Amigos e seguidores entram na discussão. Em pouco tempo, o assunto deixa de ser uma simples divergência e se transforma numa batalha pública para decidir quem será humilhado e quem sairá vencedor.
O antigo duelista queria ferir o corpo do adversário. O duelista virtual procura atingir sua reputação, seus relacionamentos e sua paz.
Em ambos os casos, encontramos sentimentos semelhantes: orgulho ferido, desejo de vingança, necessidade de demonstrar força e preocupação excessiva com a opinião alheia.
O que o Evangelho nos ensina sobre os duelos?
No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Amai os vossos inimigos”, encontramos importantes reflexões sobre o duelo.
As instruções mostram que a verdadeira grandeza não está em destruir o adversário, mas em suportar as dificuldades da caminhada sem abandonar o caminho do bem. Quem se deixa desviar por cada provocação entrega ao ofensor o controle sobre seus próprios atos.
No item 12, o duelo é apresentado como uma demonstração de coragem física, mas também de covardia moral, porque o duelista não consegue suportar a ofensa. Essa observação continua muito atual.
Nas redes sociais, alguém pode imaginar que responder imediatamente, atacar com palavras mais duras ou expor publicamente o outro seja uma demonstração de coragem. Entretanto, muitas vezes é preciso muito mais força para controlar o impulso, silenciar no momento adequado e escolher uma resposta equilibrada.
O silêncio consciente não é necessariamente fraqueza. Em determinadas situações, ele representa domínio próprio.
A falsa defesa da honra
Nos antigos duelos, o agressor alegava que precisava defender sua honra diante da sociedade. Hoje, também encontramos pessoas que afirmam:
“Não posso deixar isso sem resposta.”
“Preciso mostrar quem está certo.”
“Se eu me calar, vão pensar que sou fraco.”
“Vou expor essa pessoa para que todos saibam quem ela é.”
Mas que espécie de honra é preservada por meio da humilhação, do ódio e da vingança?
A verdadeira honra não depende dos aplausos do público nem da derrota do adversário. Ela se revela na consciência tranquila, na coerência entre aquilo que acreditamos e a maneira como agimos.
Podemos até vencer uma discussão na internet e, ainda assim, sair moralmente derrotados. Podemos reunir milhares de pessoas contra alguém e, apesar disso, afastarmo-nos dos ensinamentos de Jesus.
Quando a plateia alimenta o conflito
Os duelos antigos costumavam ter testemunhas. Os duelos virtuais também possuem plateias — e, muitas vezes, são elas que aumentam o conflito.
Curtidas, compartilhamentos e comentários podem incentivar os envolvidos a continuar a batalha. A discussão passa a gerar audiência, e a audiência alimenta novas agressões.
Por isso, também precisamos refletir sobre nossa responsabilidade como espectadores. Compartilhar uma humilhação, rir de um ataque ou incentivar alguém a “não deixar barato” é colaborar com o duelo.
Nem sempre somos os combatentes. Algumas vezes, somos aqueles que oferecem as armas.
Amar os inimigos não significa aceitar abusos
O ensinamento de Jesus sobre oferecer a outra face não significa que devemos aceitar injustiças, ameaças ou violências passivamente.
É legítimo corrigir uma informação falsa, estabelecer limites, bloquear uma pessoa, denunciar uma publicação ofensiva e procurar as autoridades quando houver ameaça, perseguição ou crime. Também podemos discordar firmemente de ideias e comportamentos.
A diferença está na intenção.
Uma coisa é buscar proteção, esclarecimento ou justiça. Outra é desejar vingança, humilhar o adversário e fazê-lo sofrer.
A prudência procura interromper o mal. A vingança procura devolver o mal.
Antes de responder, é preciso refletir
Entre a provocação e a resposta existe um espaço precioso no qual podemos escolher quem desejamos ser.
Antes de entrar em um duelo virtual, podemos perguntar:
Minha resposta ajudará a esclarecer ou apenas aumentará o conflito?
Estou defendendo uma causa justa ou apenas meu orgulho ferido?
Eu diria pessoalmente aquilo que estou prestes a escrever?
Gostaria que essas palavras fossem dirigidas a alguém que amo?
Minha atitude está de acordo com o ensinamento de Jesus?
É necessário responder agora ou seria melhor esperar que as emoções se acalmassem?
A internet favorece respostas rápidas, mas a vida espiritual exige reflexão. Uma mensagem escrita em poucos segundos pode produzir consequências durante muitos anos.
A nobre rivalidade do bem
No item 11, Santo Agostinho fala de um futuro no qual não existirá entre os homens outro antagonismo além da “nobre rivalidade do bem”.
Essa é uma belíssima proposta para nossos tempos.
Em vez de competir para descobrir quem ofende melhor, podemos competir no bem: quem compreende mais, quem perdoa primeiro, quem consegue pacificar, quem espalha palavras mais úteis e quem oferece o melhor exemplo.
As redes sociais podem ser campos de batalha, mas também podem transformar-se em campos de semeadura. A escolha depende do conteúdo que publicamos, das palavras que usamos e dos sentimentos que alimentamos.
Embainhar a espada digital
Os duelos antigos foram se tornando raros, mas ainda precisamos extinguir seus vestígios dentro de nós. A espada pode ter sido substituída pelo celular, e a pólvora, pela palavra — porém a raiz do conflito continua sendo o orgulho.
Seguir Jesus não significa nunca ser ofendido. Significa aprender a não permitir que a ofensa determine nossa conduta.
Quando recusamos o convite para uma disputa inútil, não estamos fugindo. Estamos escolhendo uma batalha mais difícil e mais importante: aquela travada contra nossas próprias tendências à cólera, ao orgulho e à vingança.
Embainhar a espada digital, respirar antes de responder e retribuir o mal com o bem são atitudes de coragem moral.
Talvez não consigamos transformar toda a internet de uma só vez. Mas podemos começar pelo espaço que ocupamos nela. Cada palavra de paz é uma semente. E toda semente de fraternidade ajuda a preparar o mundo para aquele reino de amor anunciado pelo Evangelho.
Referência
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”, especialmente os itens 11 a 16: “O duelo”. Tradução conforme a edição consultada.
Texto disponível para consulta na KardecPedia – Capítulo XII, O Duelo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Setembro Amarelo: a visão espírita sobre o suicídio e a valorização da vida


Setembro é um mês dedicado a uma reflexão que não pode se limitar a uma cor, a uma campanha ou a alguns dias do calendário: a vida precisa ser valorizada todos os dias.

O Setembro Amarelo surgiu com o propósito de ampliar o diálogo sobre a prevenção do suicídio, combater preconceitos e incentivar as pessoas em sofrimento emocional a procurarem ajuda. Em 2026, o Centro de Valorização da Vida (CVV) escolheu como tema da campanha a frase “Escutar é estar presente”.

É uma mensagem simples, mas profunda. Muitas vezes, quem sofre não precisa, num primeiro momento, de discursos ou de respostas prontas. Precisa ser ouvido. Precisa perceber que existe alguém disposto a permanecer ao seu lado.

Sob a ótica espírita, essa valorização da vida ganha ainda outro significado.

A vida como oportunidade concedida por Deus

Para o Espiritismo, a existência corporal não começa no nascimento nem termina com a morte. Somos Espíritos imortais, vivendo temporariamente uma experiência no corpo físico.

Cada encarnação constitui uma oportunidade de aprendizado, reparação, crescimento e desenvolvimento espiritual.

Por isso, mesmo quando a existência apresenta dificuldades que parecem insuportáveis, a Doutrina Espírita convida-nos a enxergar além do momento presente.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, ao tratar do suicídio, Allan Kardec apresenta justamente a esperança na continuidade da vida como um dos elementos capazes de fortalecer a pessoa diante das dificuldades.

Isso não significa minimizar a dor de ninguém.

Dizer simplesmente a alguém que está sofrendo que ela precisa “ter fé”, “ser forte” ou “aceitar sua prova” pode ser insuficiente e até cruel quando não vem acompanhado de acolhimento verdadeiro.

A própria caridade ensinada por Jesus exige muito mais.

Exige presença.

Exige escuta.

Exige cuidado.

O suicídio não deve ser tratado com julgamento

Durante muito tempo, diferentes sociedades e tradições religiosas trataram o suicídio quase exclusivamente sob o ponto de vista da condenação.

A visão espírita, embora considere que a vida não deve ser voluntariamente interrompida, também nos ensina que a responsabilidade espiritual nunca pode ser julgada de maneira simplista.

Existem circunstâncias, estados emocionais, transtornos mentais e diferentes níveis de consciência que somente Deus pode avaliar plenamente.

Portanto, diante de uma pessoa que morreu por suicídio, a atitude cristã não é condenar.

É orar.

É acolher os familiares.

É confiar na misericórdia divina.

E, principalmente, quando alguém ainda está entre nós enfrentando pensamentos de morte, nossa responsabilidade não é julgá-lo, mas ajudá-lo.

A dor passa, ainda que naquele momento pareça não passar

Uma das ideias apresentadas por Kardec é a de que o sofrimento terreno, por mais difícil que seja, possui duração limitada diante da eternidade.

Quem atravessa uma crise emocional profunda, entretanto, frequentemente perde essa perspectiva.

A pessoa pode acreditar que a dor de hoje será também a dor de amanhã, do próximo mês e de toda a sua existência.

Por isso, uma das grandes tarefas de quem está próximo é ajudá-la a atravessar aquele momento.

Não precisamos resolver toda a vida de alguém.

Às vezes, precisamos ajudá-la apenas a chegar ao próximo dia.

E depois ao outro.

Até que ela consiga novamente enxergar possibilidades que naquele momento estavam encobertas pelo sofrimento.

“Escutar é estar presente”

O tema do Setembro Amarelo de 2026 aproxima-se de maneira muito bonita do ensinamento de Jesus sobre o amor ao próximo.

Escutar verdadeiramente alguém é uma forma de caridade.

Escutar sem interromper.

Sem transformar a conversa em uma comparação com nossos próprios problemas.

Sem dizer “isso não é nada”.

Sem acusar a pessoa de falta de fé.

Sem oferecer respostas espirituais como substituição para cuidados médicos e psicológicos.

Uma pessoa em sofrimento psíquico pode precisar de acompanhamento de psicólogo, psiquiatra ou outros profissionais de saúde. Fé e tratamento não são adversários.

O conhecimento médico também pode ser compreendido como instrumento da Providência Divina a serviço da vida.

Da mesma maneira, quem possui fé pode encontrar nela uma poderosa fonte de esperança, desde que essa espiritualidade seja utilizada para acolher e fortalecer, jamais para culpabilizar.

A visão espírita é, sobretudo, uma mensagem de esperança

Talvez uma das maiores contribuições do Espiritismo para a valorização da vida seja afirmar:

nenhuma situação é eterna.

A existência continua.

O Espírito continua aprendendo.

Novas oportunidades surgem.

A dor pode se transformar.

Os caminhos podem mudar.

E enquanto houver vida, existe possibilidade de recomeço.

A pessoa que hoje não consegue perceber uma saída pode enxergá-la amanhã com ajuda adequada.

Por isso, não devemos abandonar ninguém dentro de sua própria escuridão.

Quando alguém disser “não aguento mais”

Talvez não seja o momento de dar uma palestra.

Talvez seja o momento de sentar ao lado.

Perguntar:

“Quer conversar?”

“Como posso ajudar?”

“Posso ficar com você?”

E, diante de uma situação de risco, ajudar aquela pessoa a procurar atendimento profissional imediatamente.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, além de outros canais de atendimento.

Buscar ajuda não é demonstração de fraqueza.

É uma decisão em favor da vida.

Enquanto houver vida, há caminho

O Setembro Amarelo termina quando setembro acaba.

A necessidade de cuidar uns dos outros, não.

Que saibamos perceber aqueles que estão ao nosso redor.

Que nossas comunidades religiosas sejam espaços nos quais uma pessoa possa admitir que está sofrendo sem medo de julgamento.

Que a fé não seja uma cobrança, mas um abraço.

E que jamais nos esqueçamos de que, por trás de muitas pessoas que parecem fortes, podem existir batalhas que ninguém conhece.

A Doutrina Espírita apresenta a existência como uma jornada muito maior do que conseguimos enxergar neste momento.

Por isso, diante da dor, nossa mensagem deve ser sempre de esperança:

fique.

Procure ajuda.

Permita que alguém caminhe ao seu lado.

Uma página difícil não significa o fim da história.

Enquanto houver vida, ainda existe possibilidade de mudança, aprendizado, reencontro e recomeço.

E valorizar a vida talvez comece exatamente assim:

estando presentes uns para os outros.


Referências bibliográficas

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo V — “Bem-aventurados os aflitos”, itens 14 a 17, especialmente “O suicídio e a loucura”. Diversas edições.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Quarta — “Das esperanças e consolações”, questões referentes ao suicídio e suas consequências. Diversas edições.

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA — CVV. Setembro Amarelo — Mês de Prevenção ao Suicídio. Campanha Setembro Amarelo 2026: “Escutar é estar presente”. São Paulo: CVV, 2026.

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA — CVV. Escutar é estar presente. Setembro de 2026.

KARDECPEDIA. O Evangelho segundo o Espiritismo — Capítulo V: Bem-aventurados os aflitos — O suicídio e a loucura. Consulta em setembro de 2026.


Importante: pensamentos de suicídio e situações de risco precisam ser tratados também como questão de saúde. O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188. Em situações de emergência ou risco imediato, deve-se procurar atendimento de urgência.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O ódio e o desafio de amar os inimigos

Há ensinamentos de Jesus que nos confortam imediatamente. Outros, porém, nos desafiam profundamente, porque exigem uma mudança na maneira como sentimos, pensamos e reagimos. Entre estes está uma das recomendações mais difíceis do Evangelho:

«“Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam.”

Lucas 6:27-28»

No Sermão da Montanha, encontramos orientação semelhante:

«“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”

Mateus 5:44»

Mas como amar alguém que nos prejudicou? Como desejar o bem daquele que nos feriu, traiu ou humilhou?

É justamente nesse ponto que a mensagem de Fénelon, apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ajuda-nos a compreender a profundidade do ensinamento de Jesus.

O ódio segundo Fénelon

No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, dedicado ao ensinamento “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec apresenta uma instrução de Fénelon sobre o ódio.

Fénelon ensina:

«“Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Tomai sobretudo a peito amar os que vos inspiram indiferença, ódio e desprezo.”»

A orientação chama atenção justamente porque não se limita às pessoas que nos tratam bem. Amar aqueles que nos amam é relativamente fácil. O verdadeiro desafio moral aparece diante daqueles que despertam em nós sentimentos negativos.

O ódio aprisiona quem odeia.

Quando alimentamos continuamente a lembrança de uma ofensa, permitimos que um acontecimento do passado continue exercendo influência sobre o presente. A pessoa pode até ter seguido sua vida, enquanto nós permanecemos presos à mágoa, revivendo mentalmente discussões, palavras e acontecimentos.

Por isso, combater o ódio não significa simplesmente beneficiar aquele que nos fez mal. Significa também libertar a nós mesmos.

“Amai os vossos inimigos”

Jesus já havia mostrado que o amor cristão precisava ultrapassar a lógica da reciprocidade:

«“Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?”

Mateus 5:46»

É fácil ser gentil com quem é gentil conosco. É fácil desejar felicidade a quem nos deseja felicidade.

A proposta de Jesus começa justamente onde essa facilidade termina.

Entretanto, amar um inimigo não significa sentir por ele a mesma afeição que sentimos por um familiar ou amigo querido.

No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec esclarece esse ponto. Amar os inimigos não significa necessariamente experimentar por eles uma ternura impossível de ser produzida pela simples vontade. Significa não lhes desejar o mal, não responder ao mal com o mal, não alimentar vingança e, quando possível, desejar-lhes o progresso e o bem.

Assim, o amor aos inimigos é, antes de tudo, uma decisão moral.

Talvez eu ainda não consiga abraçar quem me feriu.

Talvez eu ainda sinta tristeza quando me lembro do acontecimento.

Talvez precise estabelecer limites e até me afastar daquela pessoa.

Mas posso decidir que não quero odiá-la.

E essa decisão já representa um importante passo no caminho indicado por Jesus.

Amar não significa aceitar tudo

Esse ensinamento precisa ser compreendido com equilíbrio.

Amar os inimigos não significa permanecer em situações de violência, abuso, humilhação ou desrespeito. O Evangelho não nos pede que abandonemos a prudência nem que deixemos de estabelecer limites.

Podemos perdoar e manter distância.

Podemos desejar o bem de alguém e não permitir que essa pessoa volte a nos prejudicar.

Podemos não guardar ódio e, ao mesmo tempo, procurar a Justiça quando necessário.

O contrário do ódio não é a submissão ao mal. É a recusa em permitir que o mal recebido determine aquilo em que nós mesmos nos transformaremos.

Três situações do cotidiano

Imagine alguém que foi injustamente prejudicado no trabalho. Um colega espalhou uma mentira e isso trouxe consequências profissionais. A reação imediata pode ser desejar que o outro também fracasse. Amar o inimigo, nesse caso, não significa fingir que nada aconteceu. A pessoa pode esclarecer os fatos e defender seus direitos, mas sem transformar a busca por justiça em desejo de vingança.

Em uma família, uma discussão pode produzir palavras extremamente dolorosas. Às vezes, passam-se meses ou anos e ninguém quer dar o primeiro passo. Amar o inimigo pode começar com algo muito pequeno: parar de alimentar comentários contra aquela pessoa, deixar de recontar continuamente a ofensa e fazer uma oração por ela.

Nas redes sociais, alguém nos agride gratuitamente. A facilidade de responder imediatamente pode transformar uma simples discordância em uma sequência de insultos. Aplicar o Evangelho talvez signifique simplesmente não devolver a agressão. Podemos discordar, esclarecer nossa posição ou encerrar a conversa sem reproduzir o comportamento daquele que nos atacou.

São atitudes aparentemente pequenas, mas é justamente no cotidiano que o Evangelho deixa de ser apenas leitura e passa a ser experiência.

Fénelon e Jesus apontam para a mesma transformação

A mensagem de Fénelon nos ajuda a perceber que o mandamento de Jesus não é uma recomendação abstrata.

Quando Cristo diz “Amai os vossos inimigos”, está propondo uma ruptura com o ciclo que perpetua tantos conflitos humanos:

ofensa → ódio → vingança → nova ofensa.

Alguém precisa interromper esse ciclo.

O Evangelho convida-nos a ser essa pessoa.

Isso não acontece de uma hora para outra. Há feridas que exigem tempo. Há lembranças que ainda doem. Há situações nas quais talvez consigamos inicialmente apenas não revidar.

Mas também isso pode ser um começo.

Hoje não consigo amar? Posso tentar não odiar.

Ainda não consigo perdoar completamente? Posso começar deixando de desejar vingança.

Não consigo conviver com aquela pessoa? Posso manter a distância necessária sem desejar sua infelicidade.

Pouco a pouco, o sentimento se transforma.

A contribuição da visão espírita

Sob a perspectiva espírita, o ensinamento ganha ainda outra dimensão. Se somos Espíritos imortais em processo de aperfeiçoamento, os conflitos desta existência não representam necessariamente o começo nem o fim de nossas relações.

A reencarnação oferece oportunidades de aprendizado, reparação e reconciliação.

Aquele que hoje consideramos inimigo é também um Espírito em caminhada, sujeito a erros, quedas e aprendizado — assim como nós.

Isso não torna correta a injustiça praticada por ele. Mas muda nossa maneira de enxergá-lo.

Em vez de perguntar apenas “como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”, podemos acrescentar outra pergunta:

“O que farei com aquilo que me aconteceu?”

Transformarei a dor em ódio?

Ou procurarei transformá-la em aprendizado?

É nessa escolha que começa nossa própria renovação.

Para refletir

Amar os inimigos talvez seja uma das maiores provas da maturidade espiritual.

Não porque devamos gostar daquilo que fizeram conosco, mas porque nos recusamos a permitir que a atitude deles plante o ódio dentro de nós.

Fénelon nos chama a combater esse sentimento. Jesus nos mostra o caminho: amar, fazer o bem, bendizer e orar.

Talvez ainda estejamos muito distantes de viver integralmente esse ensinamento. Mas cada vez que recusamos a vingança, cada vez que controlamos uma palavra agressiva, cada vez que fazemos uma oração por alguém que nos feriu, uma pequena semente é lançada.

E quem deseja semear para colher precisa escolher cuidadosamente aquilo que planta no próprio coração.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, 5:43-48.

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Lucas, 6:27-36.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”, especialmente os itens referentes ao ódio e às instruções dos Espíritos.

FÉNELON. “O ódio”. In: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Independência e Evolução: A Revolução Moral da Pátria do Cruzeiro

No dia 7 de setembro de 1822, às margens do riacho do Ipiranga, o Brasil rompia seus laços políticos com Portugal. Para a historiografia tradicional, a data marca a conquista da autonomia territorial e administrativa. Sob a ótica da Doutrina Espírita, no entanto, a independência política é apenas uma etapa de um projeto soberano muito mais amplo: o progresso moral do espírito imortal.

Como nos revela a obra Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, psicografada por Chico Xavier e ditada pelo Espírito Humberto de Campos, a formação da nação brasileira não ocorreu por mero acaso geopolítico. Sob a diretriz do Mestre Jesus, o país foi preparado para ser o solo fértil onde as sementes do amor, da fraternidade e da solidariedade floresceriam, acolhendo povos de todas as raças e credos em um grande abraço universal.

Liberdade Exterior e Liberdade Interior

A verdadeira emancipação de um povo não se consolida apenas com decretos diplomáticos ou conquistas territoriais. Em O Livro dos Espíritos, na Questão 825, os Benfeitores Espirituais ensinam que a verdadeira liberdade reside no livre-arbítrio e no domínio sobre as próprias imperfeições.

Enquanto a independência de 1822 garantiu a liberdade política externa, o compromisso contínuo do povo brasileiro — e de cada um de nós — é a conquista da independência interior: o libertar-se do orgulho, do egoísmo e dos preconceitos que ainda acorrentam a alma.

O Papel de Cada Um na Construção da Pátria do Evangelho

Celebrar a Independência do Brasil no blog Semear Para Colher é renovar o compromisso com a semeadura do bem. A Pátria do Evangelho não se constrói com discursos, mas com atitudes diárias de amor ao próximo, cidadania consciente e caridade exemplificada.

Para que o Brasil cumpra plenamente sua missão espiritual perante o mundo, precisamos cultivar em nosso solo íntimo:

  • Educação e Fraternidade: Transformar a sociedade por meio do respeito mútuo e do acesso ao conhecimento moral e intelectual.

  • União e Acolhimento: Honrar a vocação pacífica e plural do nosso povo, promovendo a paz e a concórdia.

  • Trabalho no Bem: Entender que a verdadeira pátria é a humanidade e que o progresso do país depende da renovação moral de cada cidadão.

Que neste 7 de setembro possamos refletir sobre a liberdade que o Cristo nos propõe. Se a história nos deu a independência política, o Espiritismo nos convida à libertação espiritual pela via do amor e da iluminação íntima.

Cultivemos hoje as sementes da fraternidade para colhermos, amanhã, uma nação regenerada e plena de paz.

Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Aoutor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A vingança e o desafio de pagar o mal com o bem


Quando somos ofendidos, injustiçados ou feridos por alguém, uma das primeiras reações humanas pode ser desejar que aquela pessoa experimente a mesma dor que nos causou. Às vezes, essa vontade não aparece como uma vingança declarada. Pode surgir como uma resposta ríspida, uma exposição pública, uma palavra cuidadosamente escolhida para machucar ou até uma satisfação silenciosa diante do sofrimento daquele que nos prejudicou.

É justamente contra esse impulso que o Evangelho nos convida a lutar.

No capítulo XII de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec reúne ensinamentos que representam um dos aspectos mais difíceis da moral cristã. O próprio capítulo começa com a seção “Retribuir o mal com o bem” e, mais adiante, nas Instruções dos Espíritos, apresenta a mensagem “A vingança”, assinada por Jules Olivier, Paris, 1862.

Jesus e a resposta ao mal

Jesus ensinou:

“Amai os vossos inimigos [...] fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem.”
(Mateus 5:44)

É uma proposta profundamente diferente da lógica comum das relações humanas.

Gostamos de quem gosta de nós. Tratamos bem quem nos trata bem. Agradecemos àquele que nos ajuda. Até aí, quase não existe esforço moral. O verdadeiro desafio começa quando recebemos hostilidade e precisamos decidir o que faremos com ela.

A orientação de Jesus não significa que devamos considerar correto aquilo que é errado, permitir abusos ou desistir do direito de nos defender. Kardec esclarece, ao comentar o ensinamento de apresentar a outra face, que Jesus não pretendeu impedir toda defesa; o alvo de sua condenação era a vingança, isto é, a disposição de devolver deliberadamente o sofrimento recebido.

Existe, portanto, uma diferença fundamental entre buscar justiça e buscar vingança.

A justiça procura impedir que o mal continue, proteger quem foi prejudicado e, quando necessário, estabelecer consequências. A vingança deseja que o outro sofra porque nós sofremos.

Uma procura corrigir.

A outra procura ferir.

“A vingança”, segundo O Evangelho segundo o Espiritismo

Na mensagem inserida por Kardec no item 9 do capítulo XII, Jules Olivier apresenta a vingança como um remanescente de costumes bárbaros e como sinal do atraso moral daqueles que ainda se deixam dominar por esse sentimento. A mensagem afirma claramente que vingar-se é incompatível com o ensinamento do Cristo sobre o perdão aos inimigos.

Esse ensinamento complementa perfeitamente a proposta apresentada no início do mesmo capítulo: retribuir o mal com o bem.

Não se trata simplesmente de permanecer calado.

Também não significa fingir que não fomos magoados.

Muito menos significa manter proximidade com uma pessoa que continua nos fazendo mal.

Retribuir o mal com o bem significa interromper em nós a corrente do mal.

Alguém nos ofende. Podemos devolver outra ofensa.

Alguém espalha uma mentira. Podemos espalhar outra.

Alguém nos prejudica. Podemos procurar uma oportunidade para prejudicá-lo também.

Quando fazemos isso, o mal que chegou até nós não terminou: encontrou em nós um novo instrumento para continuar circulando.

O ensinamento do Cristo propõe exatamente o contrário.

O mal chega até nós — e em nós deve encontrar um limite.

É nesse sentido que a orientação de Jesus se aproxima extraordinariamente da recomendação apresentada posteriormente pelo apóstolo Paulo:

“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
(Romanos 12:21)

Responder ao mal com o bem não transforma automaticamente a pessoa que nos ofendeu. Mas começa transformando aquele que escolheu não devolver a ofensa.

E essa transformação é essencialmente espiritual.

Perdoar não é aprovar

Há uma confusão comum quando se fala em perdão.

Perdoar não significa dizer que uma injustiça foi correta.

Uma pessoa pode perdoar e, ao mesmo tempo, estabelecer limites. Pode perdoar e procurar a Justiça. Pode perdoar e encerrar uma convivência prejudicial. Pode perdoar e tomar providências para impedir que determinada atitude se repita.

O que o perdão procura retirar do coração é o desejo de vingança.

Podemos dizer:

“O que você fez foi errado e não permitirei que aconteça novamente.”

Isso é diferente de pensar:

“Agora vou fazer você sofrer como eu sofri.”

A primeira atitude estabelece um limite.

A segunda alimenta a vingança.

Para o Espiritismo, essa diferença é especialmente importante porque nossas atitudes não dizem respeito somente ao outro: elas também participam de nossa própria educação espiritual.

Cada conflito pode, portanto, transformar-se numa escolha.

Reproduziremos o comportamento que condenamos?

Ou seremos capazes de agir de maneira diferente?

Três exemplos no cotidiano

1. No ambiente de trabalho

Imagine que um colega faça um comentário injusto sobre você diante de outras pessoas. A vontade imediata pode ser procurar algum erro dele e expô-lo na primeira oportunidade.

Retribuir o mal com o bem não significa aceitar passivamente a acusação. Você pode esclarecer os fatos, conversar com o colega ou procurar a chefia, se necessário.

O que muda é a intenção: em vez de tentar humilhá-lo, você procura resolver o problema sem criar uma nova ofensa.

O bem, nesse caso, manifesta-se por meio da firmeza sem crueldade.

2. Nas redes sociais

Alguém publica um comentário agressivo em uma postagem sua.

É fácil responder no mesmo tom — e talvez até reunir amigos para atacar aquela pessoa.

Mas existe outra possibilidade: responder educadamente, esclarecer aquilo que precisa ser esclarecido e, caso a agressão continue, encerrar a discussão ou utilizar os mecanismos de bloqueio e denúncia disponíveis.

Não devolver a agressão não significa perder uma discussão. Às vezes significa simplesmente não permitir que outra pessoa escolha por nós o tipo de pessoa que seremos naquele momento.

3. Dentro da família

Uma palavra dita por alguém da família pode machucar profundamente. E justamente porque conhecemos muito bem aquelas pessoas, sabemos também quais palavras poderiam feri-las de volta.

A vingança aproveitaria esse conhecimento.

O Evangelho propõe outra escolha.

Podemos dizer que fomos magoados, explicar aquilo que consideramos inadequado e até nos afastar por algum tempo, se necessário. Mas escolher deliberadamente não atingir o ponto fraco do outro já é uma forma concreta de vencer o impulso da vingança.

Às vezes, pagar o mal com o bem começa simplesmente em não acrescentar uma nova ferida àquela que já existe.

Conclusão: onde termina a corrente do mal?

Talvez seja fácil admirar o ensinamento de Jesus quando o encontramos nas páginas do Evangelho. Difícil é recordá-lo no instante em que alguém fere nosso orgulho, prejudica nossos interesses ou nos dirige uma palavra injusta.

É justamente aí que começa sua aplicação.

O Espiritismo não nos pede que deixemos de sentir imediatamente a mágoa. Somos seres em processo de aperfeiçoamento, e determinadas feridas precisam de tempo para cicatrizar. O convite é para que não transformemos essa dor em instrumento de uma nova dor.

A vingança diz:

“Você me fez sofrer; agora sofrerá também.”

O Evangelho pergunta:

“O sofrimento precisa continuar?”

Retribuir o mal com o bem é escolher que não.

É interromper a corrente.

É compreender que a verdadeira vitória não acontece quando conseguimos derrotar aquele que considerávamos nosso inimigo, mas quando conseguimos impedir que o comportamento dele desperte em nós aquilo que também precisaríamos combater.

Por isso, amar os inimigos talvez não comece com um sentimento extraordinário de afeição.

Pode começar de maneira muito mais simples — e muito mais difícil:

recusar-se a odiar, renunciar à vingança e escolher não devolver ao mundo o mal que um dia chegou até nós.


Referências bibliográficas

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, especialmente versículos 43–48; Evangelho segundo Lucas, capítulo 6, especialmente versículos 27–36; Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículos 17–21.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”. Seções “Retribuir o mal com o bem”, itens 1 a 4; “Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra”, itens 7 e 8; e “Instruções dos Espíritos — A vingança”, item 9.

OLIVIER, Jules (Espírito). “A vingança”. Paris, 1862. In: KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, item 9.

A Parábola do Bom Samaritano: quem é o nosso próximo?

Entre os ensinamentos de Jesus, a Parábola do Bom Samaritano ocupa um lugar especial por apresentar, de maneira simples e profunda, o verdadeiro significado do amor ao próximo. Às vezes, afirma-se que essa teria sido a única parábola explicada pelo próprio Cristo. A informação, porém, não é exata: Jesus também explicou diretamente, por exemplo, as parábolas do semeador e do joio. No caso do Bom Samaritano, o que chama a atenção é que o Mestre não desenvolve uma interpretação detalhada dos símbolos da narrativa, mas conduz seu interlocutor à conclusão e apresenta uma orientação prática e inequívoca: “Vai e faze da mesma maneira”.

A pergunta que deu origem à parábola

Segundo o Evangelho de Lucas, um doutor da lei perguntou a Jesus o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. O Mestre o levou a recordar os dois grandes mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.

Desejando justificar-se, o homem fez outra pergunta:

“E quem é o meu próximo?”

Em vez de oferecer uma definição teórica, Jesus contou uma história.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando foi atacado por ladrões. Roubaram-lhe os pertences, agrediram-no e o deixaram quase morto à beira do caminho. Um sacerdote passou pelo local, viu o ferido e seguiu adiante. Depois, um levita fez o mesmo. Finalmente, passou um samaritano. Ao encontrar o desconhecido naquela situação, compadeceu-se dele, tratou suas feridas, colocou-o sobre seu próprio animal, levou-o a uma hospedaria e assumiu as despesas necessárias ao seu cuidado.

Ao terminar a narrativa, Jesus perguntou qual dos três havia sido o próximo do homem ferido. O doutor da lei respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele”. Então, o Mestre concluiu: “Vai e faze da mesma maneira”.

O próximo não é apenas aquele que está perto

A escolha de um samaritano como exemplo de bondade não foi casual. Judeus e samaritanos carregavam antigas divergências religiosas e culturais. Para muitos ouvintes de Jesus, seria surpreendente perceber que justamente o homem pertencente ao grupo desprezado foi quem demonstrou verdadeira compaixão.

O sacerdote e o levita viram o sofrimento, mas não permitiram que aquela visão modificasse seus caminhos. O samaritano também viu, porém fez algo a respeito. Aproximou-se, cuidou, transportou, procurou ajuda e assumiu responsabilidades. Sua caridade não permaneceu apenas no sentimento: transformou-se em ação.

Jesus também muda o sentido da pergunta inicial. O doutor da lei queria saber quem poderia ser considerado seu próximo, talvez procurando estabelecer os limites de sua obrigação. O Mestre, entretanto, ensina que a questão principal não é identificar quem merece o nosso amor, mas decidir de quem nós nos faremos próximos.

Três maneiras de viver essa parábola no dia a dia

1. Interromper a pressa para acolher alguém

Podemos viver a lição do Bom Samaritano quando reservamos alguns minutos para ouvir uma pessoa que está sofrendo, telefonamos para alguém que enfrenta a solidão, acompanhamos um familiar a uma consulta ou oferecemos ajuda a quem demonstra estar sobrecarregado.

Nem sempre será possível resolver o problema, mas podemos evitar a indiferença. Muitas vezes, o primeiro gesto de caridade consiste em parar, aproximar-se e escutar com atenção.

2. Auxiliar sem perguntar se a pessoa “merece”

O samaritano não investigou as opiniões, a religião, a origem ou os erros do homem ferido antes de ajudá-lo. Da mesma forma, podemos praticar a parábola quando socorremos alguém sem transformar a caridade em julgamento.

Isso acontece quando orientamos uma pessoa perdida, ajudamos um colega com quem não temos afinidade, tratamos com respeito quem pensa de maneira diferente ou oferecemos assistência a alguém em situação de vulnerabilidade. O sofrimento humano deve falar mais alto do que nossas diferenças.

3. Tornar a solidariedade concreta

A compaixão do samaritano envolveu atitudes, tempo, recursos e continuidade. Ele não se limitou a desejar que o ferido melhorasse: tratou suas feridas, levou-o a um lugar seguro e providenciou os cuidados seguintes.

No cotidiano, isso pode significar doar alimentos ou roupas em boas condições, colaborar com uma instituição séria, oferecer transporte a quem tem dificuldade de locomoção, compartilhar uma informação útil, defender a acessibilidade ou acompanhar alguém até que encontre a ajuda necessária. A boa intenção é valiosa, mas a caridade se completa quando produz alguma transformação concreta.

“Vai e faze da mesma maneira”

A Parábola do Bom Samaritano continua atual porque todos nós encontramos pessoas feridas pelos caminhos da vida. Algumas carregam dores visíveis; outras escondem sofrimentos emocionais, familiares, financeiros ou espirituais. Também nós, em determinados momentos, podemos ser aquele viajante caído, necessitando da presença compassiva de alguém.

Diante dessas situações, podemos passar adiante ou nos aproximar. A verdadeira religiosidade não se revela apenas nas palavras, nas cerimônias ou no conhecimento das Escrituras, mas principalmente na maneira como tratamos aqueles que Deus coloca em nosso caminho.

Sob a visão espírita, a parábola reafirma que o progresso espiritual não depende de títulos religiosos ou de declarações de fé, mas da caridade vivida. No capítulo XV de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec utiliza justamente o ensinamento do Bom Samaritano para demonstrar que a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, virtudes opostas ao egoísmo e ao orgulho. Kardec recorda ainda o ensino do apóstolo Paulo de que, sem caridade, até mesmo a fé e os maiores conhecimentos perdem seu valor. A máxima “Fora da caridade não há salvação” não privilegia determinada crença: ela reconhece todos como irmãos e coloca ao alcance de cada pessoa a oportunidade de crescer espiritualmente por meio da benevolência, da indulgência, do perdão e do auxílio desinteressado. Assim, ser o bom samaritano de alguém é transformar o amor em serviço e compreender que cada encontro pode ser uma oportunidade concedida por Deus para repararmos o passado, vencermos o egoísmo e avançarmos no caminho da evolução. 

Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.

domingo, 30 de agosto de 2026

Dia Mundial do Perdão: libertar o coração para seguir em frente


O Dia Mundial do Perdão, celebrado em 30 de agosto, convida à reflexão sobre uma atitude que pode transformar relações e, principalmente, nossa maneira de lidar com as próprias feridas. Perdoar não significa apagar o que aconteceu, considerar correto aquilo que nos prejudicou ou permitir que uma situação de violência, desrespeito ou injustiça continue acontecendo. O perdão pode existir ao lado de limites, afastamento, proteção e busca por justiça.

Muitas vezes, o ressentimento prolonga dentro de nós uma experiência que já terminou do lado de fora. A lembrança permanece acompanhada de raiva, tristeza, desejo de reparação ou perguntas que talvez nunca encontrem resposta. Nesse sentido, o perdão pode ser compreendido como um processo: aos poucos, a pessoa deixa de permitir que a ofensa ocupe permanentemente seus pensamentos e determine seus sentimentos.

Também é importante falar sobre o autoperdão. Há pessoas capazes de compreender os erros dos outros, mas extremamente severas consigo mesmas. Reconhecer uma falha, assumir suas consequências e procurar repará-la é diferente de viver indefinidamente sob o peso da culpa. O arrependimento saudável pode produzir mudança; a culpa sem perspectiva de transformação apenas aprisiona.

O perdão na visão espírita

Na Doutrina Espírita, o perdão está profundamente relacionado à caridade, à indulgência e ao progresso moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo X — “Bem-aventurados os misericordiosos” — encontramos reflexões sobre o perdão das ofensas e sobre a necessidade de combater o ressentimento e o desejo de vingança. Sob essa perspectiva, perdoar não é demonstração de fraqueza, mas exercício de compreensão e crescimento espiritual. Isso não elimina a responsabilidade daquele que errou: cada pessoa continua responsável pelas consequências de seus atos.

A visão espírita também nos convida a considerar que todos somos Espíritos em processo de aprendizado, sujeitos a erros e necessitados de oportunidades de transformação. Por isso, a indulgência para com as imperfeições alheias caminha junto com o esforço de reconhecer e corrigir as nossas. O perdão sincero não exige necessariamente esquecer o acontecimento, reconstruir uma relação rompida ou voltar a conviver com quem nos fez mal. Ele representa, sobretudo, o esforço para não alimentar ódio ou vingança e para confiar à consciência, à vida e à justiça divina aquilo que não nos cabe resolver pelo ressentimento.

Neste Dia Mundial do Perdão, talvez a reflexão mais importante seja justamente esta: perdoar não muda o passado, mas pode mudar a relação que temos com ele. Algumas feridas precisam de tempo, outras exigem distância e proteção, e há situações em que o perdão é uma longa caminhada. O importante é compreender que abrir mão do rancor não significa absolver o erro — significa não permitir que ele continue governando nosso coração.


Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.

Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.