Kardec reúne ali uma ideia forte: existe uma caridade “mais fácil”, que é a esmola, e existe outra “mais penosa e, por isso, mais meritória”: perdoar e suportar com equilíbrio aqueles que, por caminhos da vida, se tornam instrumentos das nossas provações, exercitando em nós a paciência. (KardecPedia)
1) Paciência não é resignação cega: é disciplina do coração
A paciência espírita não é “engolir tudo” nem calar diante do injusto. É governar-se por dentro para não agir no impulso, não ferir por reação, não agravar a dor com revolta. Ela dá tempo ao espírito: tempo de pensar, de orar, de escolher melhor, de construir respostas mais nobres.
Nesse sentido, paciência é força educada: firme, mas mansa; ativa, mas serena. Muitas vezes, o problema não é o fato em si — é a nossa pressa em resolvê-lo “do nosso jeito”, “na nossa hora”. A paciência nos ensina a cooperar com o tempo de Deus sem abandonar o dever do esforço.
2) Emmanuel: paciência como “recomendação” do discípulo em todas as situações
Em Emmanuel, pela psicografia de Chico Xavier, há um ponto prático: a vida espiritual não se resume ao culto exterior; o Evangelho se prova no mundo real, onde há aflições, necessidades e angústias. Por isso, ele recorda a recomendação de Paulo: sermos “recomendáveis em tudo… na muita paciência” — ou seja, a paciência é um selo de maturidade, visível na forma como enfrentamos o dia. (Bíblia do Caminho)
Aqui, paciência não aparece como virtude “para momentos especiais”, mas como treino diário, na família, no trabalho, na convivência, no trânsito, na espera, nas limitações do corpo e nas imperfeições alheias — sem perder a dignidade, mas também sem perder a ternura.
3) Joanna de Ângelis: paciência como antídoto para pressa, ansiedade e pressão do mundo
Joanna de Ângelis observa que a paciência tem rareado porque a vida moderna estimula pressa e ansiedade, gerando distúrbios e desgaste emocional. Ela propõe um caminho: quando cultivada com serenidade e confiança no amor de Deus, a paciência se instala e irradia, ajudando-nos a atravessar circunstâncias difíceis sem colapsar por dentro. (NEPE SEARCH)
Isso é muito atual: paciência não é só “aguentar o outro”, mas também saber esperar o amadurecimento das coisas, sem se violentar, sem se cobrar brutalmente, sem transformar cada obstáculo em catástrofe.
4) Léon Denis: paciência como escola de benevolência
Léon Denis, em Depois da Morte, no capítulo “Doçura, Paciência, Bondade”, vai além: ele descreve a paciência como a qualidade que nos ensina a suportar com calma impertinências e tribulações, e afirma que a paciência conduz à benevolência — porque, ao pacificar as reações, abrimos espaço para compreender, perdoar e ajudar. (Luz Espírita)
É uma pedagogia da alma: quando reagimos com impaciência, endurecemos. Quando exercitamos paciência, amolecemos o orgulho, desarmamos a agressividade e favorecemos o nascimento de uma bondade mais estável.
Um roteiro simples para praticar “A Paciência” no cotidiano
Sem teorizar demais, vale guardar três atitudes bem concretas:
Pausa antes da resposta: a paciência começa no segundo em que você não devolve na mesma moeda.
Oração curta e objetiva: “Senhor, governa minha reação.” (não precisa ser longa para ser verdadeira).
Caridade interpretativa: perguntar-se: “O que essa pessoa está revelando sobre a dor dela — e o que isso está treinando em mim?” (sem romantizar abusos, mas evitando o ódio).
A paciência, no olhar espírita, é um dos lugares mais discretos onde o Cristo se faz presente: não só no que fazemos, mas no modo como permanecemos fiéis ao bem quando o mundo nos puxa para a irritação.
Referências bibliográficas
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. IX: “Bem-aventurados os mansos e pacíficos”, item 7: “A Paciência”. (KardecPedia)
XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). EMMANUEL (Espírito). Pão Nosso. Cap. 132: “Em tudo”. (Bíblia do Caminho)
FRANCO, Divaldo Pereira (psicografia). JOANNA DE ÂNGELIS (Espírito). Momentos Enriquecedores. Cap. 5. (NEPE SEARCH)
DENIS, Léon. Depois da Morte. Cap. XLVIII: “Doçura, Paciência, Bondade”. (Luz Espírita)
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.

