terça-feira, 8 de setembro de 2026
O ódio e o desafio de amar os inimigos
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Independência e Evolução: A Revolução Moral da Pátria do Cruzeiro
Como nos revela a obra Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, psicografada por Chico Xavier e ditada pelo Espírito Humberto de Campos, a formação da nação brasileira não ocorreu por mero acaso geopolítico. Sob a diretriz do Mestre Jesus, o país foi preparado para ser o solo fértil onde as sementes do amor, da fraternidade e da solidariedade floresceriam, acolhendo povos de todas as raças e credos em um grande abraço universal.
Liberdade Exterior e Liberdade Interior
A verdadeira emancipação de um povo não se consolida apenas com decretos diplomáticos ou conquistas territoriais. Em O Livro dos Espíritos, na Questão 825, os Benfeitores Espirituais ensinam que a verdadeira liberdade reside no livre-arbítrio e no domínio sobre as próprias imperfeições.
Enquanto a independência de 1822 garantiu a liberdade política externa, o compromisso contínuo do povo brasileiro — e de cada um de nós — é a conquista da independência interior: o libertar-se do orgulho, do egoísmo e dos preconceitos que ainda acorrentam a alma.
O Papel de Cada Um na Construção da Pátria do Evangelho
Celebrar a Independência do Brasil no blog Semear Para Colher é renovar o compromisso com a semeadura do bem. A Pátria do Evangelho não se constrói com discursos, mas com atitudes diárias de amor ao próximo, cidadania consciente e caridade exemplificada.
Para que o Brasil cumpra plenamente sua missão espiritual perante o mundo, precisamos cultivar em nosso solo íntimo:
Educação e Fraternidade: Transformar a sociedade por meio do respeito mútuo e do acesso ao conhecimento moral e intelectual.
União e Acolhimento: Honrar a vocação pacífica e plural do nosso povo, promovendo a paz e a concórdia.
Trabalho no Bem: Entender que a verdadeira pátria é a humanidade e que o progresso do país depende da renovação moral de cada cidadão.
Que neste 7 de setembro possamos refletir sobre a liberdade que o Cristo nos propõe. Se a história nos deu a independência política, o Espiritismo nos convida à libertação espiritual pela via do amor e da iluminação íntima.
Cultivemos hoje as sementes da fraternidade para colhermos, amanhã, uma nação regenerada e plena de paz.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
A vingança e o desafio de pagar o mal com o bem
É justamente contra esse impulso que o Evangelho nos convida a lutar.
No capítulo XII de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec reúne ensinamentos que representam um dos aspectos mais difíceis da moral cristã. O próprio capítulo começa com a seção “Retribuir o mal com o bem” e, mais adiante, nas Instruções dos Espíritos, apresenta a mensagem “A vingança”, assinada por Jules Olivier, Paris, 1862.
Jesus e a resposta ao mal
Jesus ensinou:
“Amai os vossos inimigos [...] fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem.”
(Mateus 5:44)
É uma proposta profundamente diferente da lógica comum das relações humanas.
Gostamos de quem gosta de nós. Tratamos bem quem nos trata bem. Agradecemos àquele que nos ajuda. Até aí, quase não existe esforço moral. O verdadeiro desafio começa quando recebemos hostilidade e precisamos decidir o que faremos com ela.
A orientação de Jesus não significa que devamos considerar correto aquilo que é errado, permitir abusos ou desistir do direito de nos defender. Kardec esclarece, ao comentar o ensinamento de apresentar a outra face, que Jesus não pretendeu impedir toda defesa; o alvo de sua condenação era a vingança, isto é, a disposição de devolver deliberadamente o sofrimento recebido.
Existe, portanto, uma diferença fundamental entre buscar justiça e buscar vingança.
A justiça procura impedir que o mal continue, proteger quem foi prejudicado e, quando necessário, estabelecer consequências. A vingança deseja que o outro sofra porque nós sofremos.
Uma procura corrigir.
A outra procura ferir.
“A vingança”, segundo O Evangelho segundo o Espiritismo
Na mensagem inserida por Kardec no item 9 do capítulo XII, Jules Olivier apresenta a vingança como um remanescente de costumes bárbaros e como sinal do atraso moral daqueles que ainda se deixam dominar por esse sentimento. A mensagem afirma claramente que vingar-se é incompatível com o ensinamento do Cristo sobre o perdão aos inimigos.
Esse ensinamento complementa perfeitamente a proposta apresentada no início do mesmo capítulo: retribuir o mal com o bem.
Não se trata simplesmente de permanecer calado.
Também não significa fingir que não fomos magoados.
Muito menos significa manter proximidade com uma pessoa que continua nos fazendo mal.
Retribuir o mal com o bem significa interromper em nós a corrente do mal.
Alguém nos ofende. Podemos devolver outra ofensa.
Alguém espalha uma mentira. Podemos espalhar outra.
Alguém nos prejudica. Podemos procurar uma oportunidade para prejudicá-lo também.
Quando fazemos isso, o mal que chegou até nós não terminou: encontrou em nós um novo instrumento para continuar circulando.
O ensinamento do Cristo propõe exatamente o contrário.
O mal chega até nós — e em nós deve encontrar um limite.
É nesse sentido que a orientação de Jesus se aproxima extraordinariamente da recomendação apresentada posteriormente pelo apóstolo Paulo:
“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
(Romanos 12:21)
Responder ao mal com o bem não transforma automaticamente a pessoa que nos ofendeu. Mas começa transformando aquele que escolheu não devolver a ofensa.
E essa transformação é essencialmente espiritual.
Perdoar não é aprovar
Há uma confusão comum quando se fala em perdão.
Perdoar não significa dizer que uma injustiça foi correta.
Uma pessoa pode perdoar e, ao mesmo tempo, estabelecer limites. Pode perdoar e procurar a Justiça. Pode perdoar e encerrar uma convivência prejudicial. Pode perdoar e tomar providências para impedir que determinada atitude se repita.
O que o perdão procura retirar do coração é o desejo de vingança.
Podemos dizer:
“O que você fez foi errado e não permitirei que aconteça novamente.”
Isso é diferente de pensar:
“Agora vou fazer você sofrer como eu sofri.”
A primeira atitude estabelece um limite.
A segunda alimenta a vingança.
Para o Espiritismo, essa diferença é especialmente importante porque nossas atitudes não dizem respeito somente ao outro: elas também participam de nossa própria educação espiritual.
Cada conflito pode, portanto, transformar-se numa escolha.
Reproduziremos o comportamento que condenamos?
Ou seremos capazes de agir de maneira diferente?
Três exemplos no cotidiano
1. No ambiente de trabalho
Imagine que um colega faça um comentário injusto sobre você diante de outras pessoas. A vontade imediata pode ser procurar algum erro dele e expô-lo na primeira oportunidade.
Retribuir o mal com o bem não significa aceitar passivamente a acusação. Você pode esclarecer os fatos, conversar com o colega ou procurar a chefia, se necessário.
O que muda é a intenção: em vez de tentar humilhá-lo, você procura resolver o problema sem criar uma nova ofensa.
O bem, nesse caso, manifesta-se por meio da firmeza sem crueldade.
2. Nas redes sociais
Alguém publica um comentário agressivo em uma postagem sua.
É fácil responder no mesmo tom — e talvez até reunir amigos para atacar aquela pessoa.
Mas existe outra possibilidade: responder educadamente, esclarecer aquilo que precisa ser esclarecido e, caso a agressão continue, encerrar a discussão ou utilizar os mecanismos de bloqueio e denúncia disponíveis.
Não devolver a agressão não significa perder uma discussão. Às vezes significa simplesmente não permitir que outra pessoa escolha por nós o tipo de pessoa que seremos naquele momento.
3. Dentro da família
Uma palavra dita por alguém da família pode machucar profundamente. E justamente porque conhecemos muito bem aquelas pessoas, sabemos também quais palavras poderiam feri-las de volta.
A vingança aproveitaria esse conhecimento.
O Evangelho propõe outra escolha.
Podemos dizer que fomos magoados, explicar aquilo que consideramos inadequado e até nos afastar por algum tempo, se necessário. Mas escolher deliberadamente não atingir o ponto fraco do outro já é uma forma concreta de vencer o impulso da vingança.
Às vezes, pagar o mal com o bem começa simplesmente em não acrescentar uma nova ferida àquela que já existe.
Conclusão: onde termina a corrente do mal?
Talvez seja fácil admirar o ensinamento de Jesus quando o encontramos nas páginas do Evangelho. Difícil é recordá-lo no instante em que alguém fere nosso orgulho, prejudica nossos interesses ou nos dirige uma palavra injusta.
É justamente aí que começa sua aplicação.
O Espiritismo não nos pede que deixemos de sentir imediatamente a mágoa. Somos seres em processo de aperfeiçoamento, e determinadas feridas precisam de tempo para cicatrizar. O convite é para que não transformemos essa dor em instrumento de uma nova dor.
A vingança diz:
“Você me fez sofrer; agora sofrerá também.”
O Evangelho pergunta:
“O sofrimento precisa continuar?”
Retribuir o mal com o bem é escolher que não.
É interromper a corrente.
É compreender que a verdadeira vitória não acontece quando conseguimos derrotar aquele que considerávamos nosso inimigo, mas quando conseguimos impedir que o comportamento dele desperte em nós aquilo que também precisaríamos combater.
Por isso, amar os inimigos talvez não comece com um sentimento extraordinário de afeição.
Pode começar de maneira muito mais simples — e muito mais difícil:
recusar-se a odiar, renunciar à vingança e escolher não devolver ao mundo o mal que um dia chegou até nós.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, especialmente versículos 43–48; Evangelho segundo Lucas, capítulo 6, especialmente versículos 27–36; Carta de Paulo aos Romanos, capítulo 12, versículos 17–21.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”. Seções “Retribuir o mal com o bem”, itens 1 a 4; “Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra”, itens 7 e 8; e “Instruções dos Espíritos — A vingança”, item 9.
OLIVIER, Jules (Espírito). “A vingança”. Paris, 1862. In: KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XII, item 9.
A Parábola do Bom Samaritano: quem é o nosso próximo?
A pergunta que deu origem à parábola
Segundo o Evangelho de Lucas, um doutor da lei perguntou a Jesus o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. O Mestre o levou a recordar os dois grandes mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.
Desejando justificar-se, o homem fez outra pergunta:
“E quem é o meu próximo?”
Em vez de oferecer uma definição teórica, Jesus contou uma história.
Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando foi atacado por ladrões. Roubaram-lhe os pertences, agrediram-no e o deixaram quase morto à beira do caminho. Um sacerdote passou pelo local, viu o ferido e seguiu adiante. Depois, um levita fez o mesmo. Finalmente, passou um samaritano. Ao encontrar o desconhecido naquela situação, compadeceu-se dele, tratou suas feridas, colocou-o sobre seu próprio animal, levou-o a uma hospedaria e assumiu as despesas necessárias ao seu cuidado.
Ao terminar a narrativa, Jesus perguntou qual dos três havia sido o próximo do homem ferido. O doutor da lei respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele”. Então, o Mestre concluiu: “Vai e faze da mesma maneira”.
O próximo não é apenas aquele que está perto
A escolha de um samaritano como exemplo de bondade não foi casual. Judeus e samaritanos carregavam antigas divergências religiosas e culturais. Para muitos ouvintes de Jesus, seria surpreendente perceber que justamente o homem pertencente ao grupo desprezado foi quem demonstrou verdadeira compaixão.
O sacerdote e o levita viram o sofrimento, mas não permitiram que aquela visão modificasse seus caminhos. O samaritano também viu, porém fez algo a respeito. Aproximou-se, cuidou, transportou, procurou ajuda e assumiu responsabilidades. Sua caridade não permaneceu apenas no sentimento: transformou-se em ação.
Jesus também muda o sentido da pergunta inicial. O doutor da lei queria saber quem poderia ser considerado seu próximo, talvez procurando estabelecer os limites de sua obrigação. O Mestre, entretanto, ensina que a questão principal não é identificar quem merece o nosso amor, mas decidir de quem nós nos faremos próximos.
Três maneiras de viver essa parábola no dia a dia
1. Interromper a pressa para acolher alguém
Podemos viver a lição do Bom Samaritano quando reservamos alguns minutos para ouvir uma pessoa que está sofrendo, telefonamos para alguém que enfrenta a solidão, acompanhamos um familiar a uma consulta ou oferecemos ajuda a quem demonstra estar sobrecarregado.
Nem sempre será possível resolver o problema, mas podemos evitar a indiferença. Muitas vezes, o primeiro gesto de caridade consiste em parar, aproximar-se e escutar com atenção.
2. Auxiliar sem perguntar se a pessoa “merece”
O samaritano não investigou as opiniões, a religião, a origem ou os erros do homem ferido antes de ajudá-lo. Da mesma forma, podemos praticar a parábola quando socorremos alguém sem transformar a caridade em julgamento.
Isso acontece quando orientamos uma pessoa perdida, ajudamos um colega com quem não temos afinidade, tratamos com respeito quem pensa de maneira diferente ou oferecemos assistência a alguém em situação de vulnerabilidade. O sofrimento humano deve falar mais alto do que nossas diferenças.
3. Tornar a solidariedade concreta
A compaixão do samaritano envolveu atitudes, tempo, recursos e continuidade. Ele não se limitou a desejar que o ferido melhorasse: tratou suas feridas, levou-o a um lugar seguro e providenciou os cuidados seguintes.
No cotidiano, isso pode significar doar alimentos ou roupas em boas condições, colaborar com uma instituição séria, oferecer transporte a quem tem dificuldade de locomoção, compartilhar uma informação útil, defender a acessibilidade ou acompanhar alguém até que encontre a ajuda necessária. A boa intenção é valiosa, mas a caridade se completa quando produz alguma transformação concreta.
“Vai e faze da mesma maneira”
A Parábola do Bom Samaritano continua atual porque todos nós encontramos pessoas feridas pelos caminhos da vida. Algumas carregam dores visíveis; outras escondem sofrimentos emocionais, familiares, financeiros ou espirituais. Também nós, em determinados momentos, podemos ser aquele viajante caído, necessitando da presença compassiva de alguém.
Diante dessas situações, podemos passar adiante ou nos aproximar. A verdadeira religiosidade não se revela apenas nas palavras, nas cerimônias ou no conhecimento das Escrituras, mas principalmente na maneira como tratamos aqueles que Deus coloca em nosso caminho.
Sob a visão espírita, a parábola reafirma que o progresso espiritual não depende de títulos religiosos ou de declarações de fé, mas da caridade vivida. No capítulo XV de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec utiliza justamente o ensinamento do Bom Samaritano para demonstrar que a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, virtudes opostas ao egoísmo e ao orgulho. Kardec recorda ainda o ensino do apóstolo Paulo de que, sem caridade, até mesmo a fé e os maiores conhecimentos perdem seu valor. A máxima “Fora da caridade não há salvação” não privilegia determinada crença: ela reconhece todos como irmãos e coloca ao alcance de cada pessoa a oportunidade de crescer espiritualmente por meio da benevolência, da indulgência, do perdão e do auxílio desinteressado. Assim, ser o bom samaritano de alguém é transformar o amor em serviço e compreender que cada encontro pode ser uma oportunidade concedida por Deus para repararmos o passado, vencermos o egoísmo e avançarmos no caminho da evolução.
domingo, 30 de agosto de 2026
Dia Mundial do Perdão: libertar o coração para seguir em frente
Muitas vezes, o ressentimento prolonga dentro de nós uma experiência que já terminou do lado de fora. A lembrança permanece acompanhada de raiva, tristeza, desejo de reparação ou perguntas que talvez nunca encontrem resposta. Nesse sentido, o perdão pode ser compreendido como um processo: aos poucos, a pessoa deixa de permitir que a ofensa ocupe permanentemente seus pensamentos e determine seus sentimentos.
Também é importante falar sobre o autoperdão. Há pessoas capazes de compreender os erros dos outros, mas extremamente severas consigo mesmas. Reconhecer uma falha, assumir suas consequências e procurar repará-la é diferente de viver indefinidamente sob o peso da culpa. O arrependimento saudável pode produzir mudança; a culpa sem perspectiva de transformação apenas aprisiona.
O perdão na visão espírita
Na Doutrina Espírita, o perdão está profundamente relacionado à caridade, à indulgência e ao progresso moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo X — “Bem-aventurados os misericordiosos” — encontramos reflexões sobre o perdão das ofensas e sobre a necessidade de combater o ressentimento e o desejo de vingança. Sob essa perspectiva, perdoar não é demonstração de fraqueza, mas exercício de compreensão e crescimento espiritual. Isso não elimina a responsabilidade daquele que errou: cada pessoa continua responsável pelas consequências de seus atos.
A visão espírita também nos convida a considerar que todos somos Espíritos em processo de aprendizado, sujeitos a erros e necessitados de oportunidades de transformação. Por isso, a indulgência para com as imperfeições alheias caminha junto com o esforço de reconhecer e corrigir as nossas. O perdão sincero não exige necessariamente esquecer o acontecimento, reconstruir uma relação rompida ou voltar a conviver com quem nos fez mal. Ele representa, sobretudo, o esforço para não alimentar ódio ou vingança e para confiar à consciência, à vida e à justiça divina aquilo que não nos cabe resolver pelo ressentimento.
Neste Dia Mundial do Perdão, talvez a reflexão mais importante seja justamente esta: perdoar não muda o passado, mas pode mudar a relação que temos com ele. Algumas feridas precisam de tempo, outras exigem distância e proteção, e há situações em que o perdão é uma longa caminhada. O importante é compreender que abrir mão do rancor não significa absolver o erro — significa não permitir que ele continue governando nosso coração.
Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Como devemos agir diante dos inimigos desencarnados?
Segundo o Espiritismo, a morte do corpo não transforma imediatamente uma pessoa. Cada Espírito leva consigo seus sentimentos, suas lembranças e o grau de evolução que já alcançou. Por isso, alguém que desencarnou guardando mágoa, revolta ou desejo de vingança pode continuar alimentando esses sentimentos no mundo espiritual.
Allan Kardec explica que, assim como devemos agir com benevolência diante dos inimigos encarnados, precisamos ter a mesma atitude em relação aos desencarnados. Esse ensinamento amplia o sentido das palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos”. O amor, portanto, não deve ficar limitado às relações da vida presente, mas faz parte de uma lei maior de solidariedade e fraternidade entre todos os seres. Leia o item “Os inimigos desencarnados”, do capítulo 12.
Amar não significa aprovar o mal
Amar um inimigo, encarnado ou desencarnado, não significa concordar com aquilo que ele faz. Também não significa sentir por ele a mesma afeição que sentimos por um familiar ou amigo.
Nesse caso, amar significa não alimentar o ódio, não desejar vingança e não responder ao mal com mais mal. É reconhecer que aquele Espírito também é um filho de Deus, ainda imperfeito e necessitado de auxílio, assim como todos nós.
O Espírito que procura prejudicar alguém demonstra que ainda sofre com a ignorância, a raiva ou o desejo de vingança. Embora sua atitude seja errada, ele também precisa de esclarecimento, misericórdia e oportunidade de transformação.
A oração é uma resposta de amor
Uma das atitudes mais importantes diante de um inimigo desencarnado é a oração sincera. Podemos pedir a Deus e aos bons Espíritos que o amparem, esclareçam e conduzam para um caminho melhor.
Não devemos orar apenas pedindo que ele se afaste de nós. Podemos pedir também que encontre paz, compreenda seus erros e receba o auxílio de que necessita. Quando desejamos sinceramente o bem daquele que nos deseja o mal, começamos a romper o ciclo de ódio que nos liga a ele.
Uma oração simples pode dizer:
“Senhor, ampara o irmão que ainda guarda mágoa ou revolta contra mim. Ajuda-o a encontrar paz e esclarecimento. Se eu lhe causei algum mal, nesta vida ou em outra, peço perdão. Que possamos seguir nossos caminhos sem ódio, unidos pelo aprendizado e pela misericórdia de Deus.”
Também precisamos observar nossas atitudes
O ensinamento espírita não nos convida apenas a pedir que o outro mude. Precisamos examinar o que existe dentro de nós.
Ainda guardamos rancor? Desejamos vingança? Alimentamos pensamentos constantes de medo, raiva ou desespero? Recusamo-nos a perdoar?
A transformação moral, o esforço para corrigir nossos defeitos, a prática da caridade e a vigilância sobre nossos pensamentos ajudam a criar uma vida interior mais equilibrada. Quanto mais cultivamos o bem, menos espaço oferecemos para influências negativas.
Isso não quer dizer que toda dificuldade, doença ou pensamento ruim seja causado por um Espírito. O Espiritismo recomenda bom senso. Problemas físicos e emocionais também precisam ser avaliados por profissionais de saúde. O cuidado espiritual pode acompanhar o tratamento médico ou psicológico, mas não deve substituí-lo.
Não devemos agir com medo
Diante da possibilidade de uma influência espiritual negativa, a primeira atitude não deve ser o pânico. O medo excessivo pode aumentar a angústia e dificultar o equilíbrio.
Além da oração, podemos realizar o Evangelho no Lar, cultivar bons pensamentos, evitar conflitos desnecessários e procurar uma casa espírita séria, onde seja possível receber orientação e assistência espiritual de maneira gratuita, responsável e sem práticas supersticiosas.
Não devemos tentar conversar, desafiar ou expulsar Espíritos por conta própria. A melhor defesa não está nas ameaças nem nos rituais, mas na confiança em Deus, na mudança de comportamento e na perseverança no bem.
O perdão liberta os dois lados
Às vezes, a inimizade pode ter começado muito antes da vida atual. Segundo a Doutrina Espírita, podemos reencontrar pessoas com quem tivemos conflitos em outras existências. Não conhecemos todos os acontecimentos do passado, mas podemos decidir o que faremos no presente.
Se respondermos com ódio, prolongaremos a ligação dolorosa. Se escolhermos o perdão, a oração e a reparação possível, começaremos a desfazer os laços da vingança.
Perdoar não apaga automaticamente as consequências dos atos, nem significa aceitar novas agressões. Perdoar é deixar de alimentar o desejo de fazer o outro sofrer. É entregar a justiça a Deus e seguir trabalhando pela própria transformação.
Vencer o mal com o bem
A grande orientação do capítulo 12 de O Evangelho Segundo o Espiritismo é simples de compreender, embora nem sempre seja fácil de praticar: devemos responder ao mal com o bem.
Diante dos inimigos desencarnados, a atitude espírita deve ser de serenidade, oração, benevolência e confiança em Deus. Em vez de enxergarmos apenas um perseguidor, somos convidados a reconhecer um Espírito doente da alma, que também precisa de auxílio.
O ódio aprisiona aquele que odeia e aquele que é odiado. O perdão, ao contrário, abre caminho para a libertação de ambos.
Amar os inimigos desencarnados é não devolver a ofensa, desejar que eles encontrem a paz e cuidar para que nossas próprias atitudes sejam cada vez mais próximas dos ensinamentos de Jesus. É assim que, pouco a pouco, interrompemos antigas histórias de sofrimento e começamos a semear um futuro de reconciliação.
Semear para Colher
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
Amar os inimigos não é permitir que continuem nos machucando
Quando Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos”, ele propôs uma das lições mais difíceis do Evangelho. Afinal, como amar alguém que nos ofendeu, espalhou mentiras, praticou bullying, nos humilhou ou tentou nos prejudicar?
Para compreendermos esse ensinamento, precisamos primeiro esclarecer o significado da palavra “amar”. O capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo explica que Jesus não espera que tratemos um inimigo como tratamos um grande amigo.
Não somos obrigados a sentir carinho, manter intimidade ou confiar em quem já demonstrou querer nos fazer mal. A confiança precisa ser construída por meio de atitudes e pode ser perdida quando alguém abusa dela.
Portanto, amar um inimigo não significa gostar do que ele fez. Significa não permitir que o mal praticado por essa pessoa transforme também o nosso coração.
Quem é o nosso inimigo?
Quando ouvimos a palavra “inimigo”, talvez imaginemos alguém participando de uma guerra. Porém, em nossa vida diária, inimigo pode ser o colega que nos persegue na escola, a pessoa que inventa mentiras a nosso respeito, alguém que nos traiu ou até quem nos ataca pelas redes sociais.
Também pode ser alguém por quem alimentamos raiva durante muito tempo.
Nem sempre a outra pessoa continua pensando em nós. Às vezes, ela segue a própria vida, enquanto nós continuamos presos à ofensa. Nesse caso, a mágoa transforma-se em uma espécie de corrente: o ofensor pode estar distante, mas ainda ocupa nossos pensamentos e influencia nossas emoções.
Amar o inimigo começa quando decidimos romper essa corrente.
O que Jesus espera de nós?
Jesus espera que não respondamos ao mal com outro mal.
Isso significa não buscar vingança, não espalhar mentiras para revidar, não comemorar o sofrimento do outro e não utilizar os seus erros como desculpa para praticarmos os mesmos erros.
Segundo o capítulo XII, amar os inimigos é:
não guardar ódio;
perdoar, ainda que isso leve tempo;
não desejar o sofrimento de quem nos ofendeu;
não prejudicar essa pessoa;
ajudá-la, se estiver realmente necessitada e tivermos condições de fazê-lo;
desejar que ela reconheça os próprios erros e se transforme;
não impedir uma reconciliação sincera;
orar por ela;
responder ao mal com o bem.
Isso não acontece de uma hora para outra. O perdão pode ser um processo. Jesus não nos pede que finjamos que a dor não existe, mas que trabalhemos para que ela não se transforme em ódio.
Podemos começar com uma oração simples:
“Deus, ainda não consigo gostar dessa pessoa nem esquecer o que aconteceu. Mas não quero viver com ódio. Ajuda-me a encontrar paz e ajuda essa pessoa a compreender e corrigir os seus erros.”
Essa oração já representa um passo importante.
O que Jesus não espera de nós?
Jesus não espera que sejamos ingênuos.
Amar um inimigo não significa:
confiar imediatamente em quem nos traiu;
voltar a conviver com uma pessoa perigosa;
fingir que nada aconteceu;
aceitar agressões, humilhações ou abusos;
permanecer em uma amizade ou relacionamento que nos faz mal;
esconder o bullying de pais, responsáveis ou professores;
deixar de denunciar uma violência;
abandonar os nossos direitos;
permitir que o agressor continue fazendo novas vítimas;
sentir pelo inimigo o mesmo carinho que sentimos por um amigo.
Podemos perdoar alguém e, ao mesmo tempo, manter uma distância necessária. Podemos desejar que a pessoa melhore sem permitir que ela volte a entrar em nossa vida. Podemos recusar a vingança e ainda assim procurar ajuda, proteção e justiça.
Estabelecer limites não é odiar. Afastar-se de uma situação perigosa não é falta de caridade. Denunciar uma agressão não é vingança, desde que o objetivo seja proteger, corrigir e impedir que o mal continue.
Jesus nos pede misericórdia, mas não nos pede que colaboremos com o erro.
E o ensinamento de “oferecer a outra face”?
Essa expressão também costuma ser mal interpretada.
Oferecer a outra face não significa permanecer parado enquanto alguém continua nos agredindo. Significa recusar-se a responder com a mesma violência. É demonstrar que o comportamento errado do outro não terá poder para decidir quem nós seremos.
Imagine que alguém publique uma ofensa contra você na internet. Oferecer a outra face não é aceitar silenciosamente todas as agressões. Você pode bloquear a pessoa, guardar as provas, denunciar a publicação e procurar um adulto responsável. O que o Evangelho recomenda é que você não crie outra mentira, não organize uma vingança e não tente destruir a vida do agressor.
Isso exige muito mais coragem do que simplesmente revidar.
Por que devemos amar os inimigos?
Porque o ódio não corrige o passado. Ele apenas prolonga, dentro de nós, o mal que alguém começou.
Quando respondemos à ofensa com outra ofensa, formamos uma corrente: um machuca o outro, que revida, que volta a atacar. Alguém precisa interromper esse ciclo. Jesus nos convida a sermos essa pessoa.
Amar os inimigos também é uma vitória contra o orgulho. O orgulho deseja derrotar, humilhar e provar que o outro merece sofrer. O amor deseja que o erro termine e que todos possam aprender, reparar o mal e evoluir.
Isso não significa considerar certas atitudes menos graves. Significa compreender que nenhum ser humano é apenas o pior erro que já cometeu. Todos somos Espíritos em aprendizado, capazes de errar e também de mudar.
Quando desejamos sinceramente que alguém se transforme, estamos praticando uma forma elevada de amor.
Perdoar não é apagar as consequências
O perdão acontece em nosso coração; a reparação depende de quem praticou o mal.
Se alguém quebrou alguma coisa, deve consertá-la ou substituí-la. Se mentiu, deve reconhecer a verdade. Se feriu alguém, precisa assumir a responsabilidade. Se praticou um crime, poderá responder perante a lei.
Perdoar não significa impedir essas consequências. Significa não desejar que a pessoa sofra apenas para satisfazer a nossa raiva.
A justiça procura corrigir e proteger. A vingança procura fazer sofrer. Essa diferença é fundamental.
Uma escolha que fazemos todos os dias
Talvez você ainda não consiga olhar para quem o feriu e sentir paz. Isso não faz de você uma pessoa ruim. Somos seres humanos em processo de crescimento.
O importante é não alimentar conscientemente o desejo de vingança. Cada vez que desistimos de uma resposta cruel, evitamos uma fofoca, interrompemos um pensamento de ódio ou fazemos uma oração por alguém difícil, estamos aprendendo a amar como Jesus ensinou.
Amar os inimigos não é entregar novamente a chave da nossa casa a quem já tentou nos roubar. É apenas retirar dessa pessoa a chave do nosso coração, para que ela não continue aprisionando nossos pensamentos por meio da raiva.
Jesus não espera que chamemos de amigo quem ainda não se comporta como amigo. Ele espera que, mesmo diante do mal, não escolhamos nos transformar em inimigos também.
Essa é uma das maiores vitórias que podemos alcançar sobre nós mesmos.
Texto elaborado com base no capítulo XII — “Amai os vossos inimigos” — de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.


