Existe uma frase silenciosa que quase nunca percebemos no meio das nossas irritações diárias:
“O outro do outro também somos nós.”
Achamos muito fácil enxergar a falha alheia quando estamos na posição de quem foi contrariado. Mas o Evangelho nos convida a um exercício desconfortável e libertador: perceber que, muitas vezes, nós ocupamos exatamente o papel da pessoa que criticamos.
No capítulo 10 de O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente na parte chamada “Instruções dos Espíritos”, aprendemos sobre indulgência, misericórdia e sobre a necessidade de olhar as imperfeições humanas com mais compreensão do que severidade. Afinal, quem de nós atravessa a vida sem errar?
Jesus resumiu isso de maneira simples e profunda:
“Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado.”
O problema é que, no cotidiano, adoramos carregar pedrinhas emocionais no bolso.
O motorista lento… e nós no dia seguinte
Num dia qualquer, alguém dirige devagar na nossa frente.
Reclamamos:
— “Nossa, que pessoa lerda!”
No dia seguinte, somos nós que estamos distraídos, preocupados com uma conta, uma dor, uma notícia ruim ou simplesmente cansados. E então reduzimos a velocidade sem perceber.
Naquele momento, viramos “o motorista lento” da vida de alguém.
O outro do outro éramos nós.
O atendente impaciente
Às vezes encontramos um atendente seco, sem paciência, quase automático.
Pensamos:
— “Falta educação.”
Mas não sabemos se aquela pessoa dormiu mal, se está cuidando de alguém doente, se acabou de receber uma notícia difícil ou se enfrenta batalhas invisíveis.
Curiosamente, quando nós estamos emocionalmente esgotados, também respondemos de maneira mais fria.
E esperamos compreensão.
Nas redes sociais isso piora
A internet criou um estranho hábito moderno: julgar pessoas sem contexto.
Uma frase mal interpretada.
Uma foto.
Um comentário isolado.
E logo surgem “tribunais digitais”.
O Espiritismo nos lembra que evolução espiritual não combina com prazer em condenar. Quem realmente compreende a fragilidade humana aprende a corrigir sem humilhar.
Indulgência não significa concordar com tudo.
Significa lembrar que ninguém é apenas o pior momento da própria vida.
Dentro de casa também acontece
É curioso como pedimos compreensão para os nossos erros:
— “Eu estava nervoso.”
— “Não foi minha intenção.”
— “Você me entendeu errado.”
Mas, quando o outro falha, às vezes concluímos imediatamente:
— “É mau.”
— “É egoísta.”
— “Não presta.”
Queremos que expliquem nossas atitudes.
Mas julgamos as atitudes alheias sem explicação alguma.
A indulgência não é fraqueza
Muita gente confunde indulgência com “passar pano”.
Não é isso.
O Evangelho não nos pede cegueira moral. Ele nos pede humanidade.
Podemos corrigir sem destruir.
Discordar sem odiar.
Ensinar sem humilhar.
E até nos afastar de alguém, se necessário, sem alimentar rancor.
A indulgência espírita nasce da consciência de que todos estamos em processo de aprendizado.
Alguns erram mais hoje.
Outros erraram mais ontem.
E nós mesmos talvez erremos amanhã.
O mundo seria mais leve se…
…antes de condenar alguém, fizéssemos uma pergunta simples:
“E se eu estivesse vivendo exatamente as dores, os limites e as experiências dessa pessoa?”
Talvez falaríamos mais baixo.
Talvez responderíamos com mais calma.
Talvez entenderíamos que cada criatura trava lutas invisíveis.
O Evangelho não espera perfeição imediata.
Mas espera esforço sincero para sermos menos duros.
Porque, no fundo, o “outro” que hoje julgamos pode ser apenas um reflexo de nós mesmos em circunstâncias diferentes.
E porque, cedo ou tarde, descobrimos uma verdade inevitável:
o outro do outro também somos nós.
