Segundo o Espiritismo, a morte do corpo não transforma imediatamente uma pessoa. Cada Espírito leva consigo seus sentimentos, suas lembranças e o grau de evolução que já alcançou. Por isso, alguém que desencarnou guardando mágoa, revolta ou desejo de vingança pode continuar alimentando esses sentimentos no mundo espiritual.
Allan Kardec explica que, assim como devemos agir com benevolência diante dos inimigos encarnados, precisamos ter a mesma atitude em relação aos desencarnados. Esse ensinamento amplia o sentido das palavras de Jesus: “Amai os vossos inimigos”. O amor, portanto, não deve ficar limitado às relações da vida presente, mas faz parte de uma lei maior de solidariedade e fraternidade entre todos os seres. Leia o item “Os inimigos desencarnados”, do capítulo 12.
Amar não significa aprovar o mal
Amar um inimigo, encarnado ou desencarnado, não significa concordar com aquilo que ele faz. Também não significa sentir por ele a mesma afeição que sentimos por um familiar ou amigo.
Nesse caso, amar significa não alimentar o ódio, não desejar vingança e não responder ao mal com mais mal. É reconhecer que aquele Espírito também é um filho de Deus, ainda imperfeito e necessitado de auxílio, assim como todos nós.
O Espírito que procura prejudicar alguém demonstra que ainda sofre com a ignorância, a raiva ou o desejo de vingança. Embora sua atitude seja errada, ele também precisa de esclarecimento, misericórdia e oportunidade de transformação.
A oração é uma resposta de amor
Uma das atitudes mais importantes diante de um inimigo desencarnado é a oração sincera. Podemos pedir a Deus e aos bons Espíritos que o amparem, esclareçam e conduzam para um caminho melhor.
Não devemos orar apenas pedindo que ele se afaste de nós. Podemos pedir também que encontre paz, compreenda seus erros e receba o auxílio de que necessita. Quando desejamos sinceramente o bem daquele que nos deseja o mal, começamos a romper o ciclo de ódio que nos liga a ele.
Uma oração simples pode dizer:
“Senhor, ampara o irmão que ainda guarda mágoa ou revolta contra mim. Ajuda-o a encontrar paz e esclarecimento. Se eu lhe causei algum mal, nesta vida ou em outra, peço perdão. Que possamos seguir nossos caminhos sem ódio, unidos pelo aprendizado e pela misericórdia de Deus.”
Também precisamos observar nossas atitudes
O ensinamento espírita não nos convida apenas a pedir que o outro mude. Precisamos examinar o que existe dentro de nós.
Ainda guardamos rancor? Desejamos vingança? Alimentamos pensamentos constantes de medo, raiva ou desespero? Recusamo-nos a perdoar?
A transformação moral, o esforço para corrigir nossos defeitos, a prática da caridade e a vigilância sobre nossos pensamentos ajudam a criar uma vida interior mais equilibrada. Quanto mais cultivamos o bem, menos espaço oferecemos para influências negativas.
Isso não quer dizer que toda dificuldade, doença ou pensamento ruim seja causado por um Espírito. O Espiritismo recomenda bom senso. Problemas físicos e emocionais também precisam ser avaliados por profissionais de saúde. O cuidado espiritual pode acompanhar o tratamento médico ou psicológico, mas não deve substituí-lo.
Não devemos agir com medo
Diante da possibilidade de uma influência espiritual negativa, a primeira atitude não deve ser o pânico. O medo excessivo pode aumentar a angústia e dificultar o equilíbrio.
Além da oração, podemos realizar o Evangelho no Lar, cultivar bons pensamentos, evitar conflitos desnecessários e procurar uma casa espírita séria, onde seja possível receber orientação e assistência espiritual de maneira gratuita, responsável e sem práticas supersticiosas.
Não devemos tentar conversar, desafiar ou expulsar Espíritos por conta própria. A melhor defesa não está nas ameaças nem nos rituais, mas na confiança em Deus, na mudança de comportamento e na perseverança no bem.
O perdão liberta os dois lados
Às vezes, a inimizade pode ter começado muito antes da vida atual. Segundo a Doutrina Espírita, podemos reencontrar pessoas com quem tivemos conflitos em outras existências. Não conhecemos todos os acontecimentos do passado, mas podemos decidir o que faremos no presente.
Se respondermos com ódio, prolongaremos a ligação dolorosa. Se escolhermos o perdão, a oração e a reparação possível, começaremos a desfazer os laços da vingança.
Perdoar não apaga automaticamente as consequências dos atos, nem significa aceitar novas agressões. Perdoar é deixar de alimentar o desejo de fazer o outro sofrer. É entregar a justiça a Deus e seguir trabalhando pela própria transformação.
Vencer o mal com o bem
A grande orientação do capítulo 12 de O Evangelho Segundo o Espiritismo é simples de compreender, embora nem sempre seja fácil de praticar: devemos responder ao mal com o bem.
Diante dos inimigos desencarnados, a atitude espírita deve ser de serenidade, oração, benevolência e confiança em Deus. Em vez de enxergarmos apenas um perseguidor, somos convidados a reconhecer um Espírito doente da alma, que também precisa de auxílio.
O ódio aprisiona aquele que odeia e aquele que é odiado. O perdão, ao contrário, abre caminho para a libertação de ambos.
Amar os inimigos desencarnados é não devolver a ofensa, desejar que eles encontrem a paz e cuidar para que nossas próprias atitudes sejam cada vez mais próximas dos ensinamentos de Jesus. É assim que, pouco a pouco, interrompemos antigas histórias de sofrimento e começamos a semear um futuro de reconciliação.
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