Há uma frase clássica da literatura brasileira que atravessou gerações: “Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim…”. Ela expressa uma ideia muito comum — a de que o temperamento é destino, algo fixo, imutável, que define quem somos para sempre.
Mas será mesmo?
Quando olhamos para o pensamento de Samuel Hahnemann, criador da homeopatia, e de Allan Kardec, encontramos uma visão bem diferente: o ser humano possui inclinações naturais, sim, porém é chamado constantemente ao exercício da temperança, isto é, do autodomínio e da educação moral.
E é exatamente por isso que, neste ponto, Gabriela — símbolo literário do “sou assim mesmo” — definitivamente não tem razão.
Temperamento: o que herdamos
Para Hahnemann, o temperamento está ligado à constituição física, energética e emocional do indivíduo. Ele observava que cada pessoa reage de forma distinta às experiências, às doenças e ao mundo ao redor.
Alguns são mais impulsivos; outros, introspectivos. Há os expansivos, os sensíveis, os racionais, os emotivos. Essas tendências não surgem do nada — fazem parte da nossa estrutura pessoal.
Sob esse olhar, o temperamento não é defeito nem virtude: é ponto de partida.
No entanto, Hahnemann também compreendia que o equilíbrio do ser depende de harmonizar essas tendências, e não de simplesmente se entregar a elas.
Temperança: o que escolhemos construir
Já em Allan Kardec, especialmente nas obras que tratam do aperfeiçoamento moral, encontramos a ideia de que o espírito está em constante evolução.
Ninguém permanece igual para sempre. O que hoje é impulso pode tornar-se serenidade. O que hoje é orgulho pode se transformar em humildade. O que hoje é exagero pode virar equilíbrio.
A temperança aparece como uma virtude essencial:
- moderação das paixões
- equilíbrio nas emoções
- consciência antes da ação
- domínio de si mesmo
Ou seja, enquanto o temperamento aponta tendências, a temperança indica direção.
O encontro entre Hahnemann e Kardec
Embora venham de campos diferentes — um da medicina e outro da filosofia espiritual —, ambos convergem em algo profundo:
➡️ O ser humano não está condenado ao próprio temperamento.
As tendências naturais existem, mas não são sentença final. Elas são material de trabalho interior.
Podemos imaginar assim:
- Temperamento = a matéria-prima
- Temperança = a arte de lapidar
É como receber um instrumento musical: ele possui um timbre próprio, mas depende do músico aprender a tocar com harmonia.
Então… por que Gabriela não tem razão?
Porque dizer “eu sou assim” como justificativa para agir sem reflexão é abrir mão do maior poder humano: o de transformar-se.
Nem Hahnemann nem Kardec defendem a negação da natureza pessoal. Pelo contrário. O convite é conhecê-la — e, a partir desse autoconhecimento, evoluir.
A verdadeira maturidade nasce quando deixamos de usar o temperamento como desculpa e passamos a exercitar a temperança como escolha consciente.
🌱 Reflexão final
Todos carregamos traços fortes, emoções intensas e formas próprias de reagir à vida. Isso faz parte da experiência humana.
Mas o crescimento acontece quando perguntamos:
“Como posso ser melhor do que fui ontem?”
Talvez a grande resposta seja esta: não fomos criados para permanecer iguais, mas para aprender, ajustar, amadurecer e florescer.
E é exatamente aí que temperamento encontra temperança — e a vida começa a dar frutos.
Referências bibliográficas
HAHNEMANN, Samuel. Organon da Arte de Curar (Organon of Medicine). Aforismo §5 (sobre considerar constituição, hábitos e caráter moral/intelectual na observação do paciente). �
homeopathyschool.com
HAHNEMANN, Samuel. Organon da Arte de Curar (Organon of Medicine). Aforismo §211 (sobre a relevância do estado de disposição/mente na observação do enfermo). �
HomeopathyBooks.in
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Leis Morais. Questão 909 (sobre vencer más inclinações pelo esforço e pela vontade). �
KardecPedia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Leis Morais. Questões 919 e 919-a (Conhecimento de si mesmo como meio prático de melhoria moral; exame de consciência sugerido). �
Bíblia do Caminho · 1
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo: com explicações das máximas morais do Cristo em concordância com o Espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida. Rio de Janeiro: FEB. Edição em PDF consultada. �
Texto e imagem produzidos com inteligência artificial. Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.