“Dai gratuitamente o que haveis recebido gratuitamente.”
(Mateus 10:8)
Entre os muitos ensinamentos deixados por Jesus, poucos são tão diretos e, ao mesmo tempo, tão profundos quanto este.
A frase é frequentemente lembrada no Espiritismo quando se fala sobre a mediunidade gratuita. E não por acaso. Allan Kardec ensinou que a mediunidade não deve ser transformada em instrumento de lucro, pois os dons espirituais pertencem a Deus e não ao homem.
Mas talvez o alcance dessa mensagem seja ainda maior.
Quando Jesus fala sobre dar gratuitamente aquilo que recebemos gratuitamente, Ele nos convida a refletir sobre tudo aquilo que chega até nós como bênção da vida:
- o conhecimento;
- o consolo;
- a oportunidade;
- o acolhimento;
- a escuta;
- a palavra amiga;
- a oração;
- a capacidade de ajudar.
Nada disso tem preço.
Vivemos em um mundo acostumado a transformar quase tudo em troca, interesse ou vantagem. Muitas vezes, as relações humanas passam a funcionar como comércio emocional: ajuda-se esperando retorno, oferece-se esperando reconhecimento, faz-se o bem aguardando recompensa.
Mas o Evangelho segue outra direção.
Jesus nos ensina a servir por amor.
Isso não significa desvalorizar o trabalho honesto ou negar a importância das profissões e do sustento material. O próprio Evangelho afirma que “o trabalhador é digno do seu salário”.
O problema começa quando o sagrado vira mercadoria.
Quando a fé vira espetáculo.
Quando a dor alheia se transforma em oportunidade de ganho.
Quando o auxílio espiritual deixa de ser serviço e passa a ser exploração.
A verdadeira caridade não calcula lucros.
Ela compreende que todos nós já recebemos gratuitamente muito mais do que imaginamos:
- o amparo invisível nas horas difíceis;
- os recomeços que a vida nos concede;
- os afetos que nos sustentam;
- as oportunidades de aprendizado;
- e até mesmo o tempo necessário para corrigirmos nossos erros.
Talvez por isso a gratuidade seja uma das expressões mais bonitas da espiritualidade.
Quem aprende a servir sem interesse descobre uma forma diferente de riqueza: a alegria íntima de ser útil.
E, curiosamente, quanto mais o bem circula, mais ele cresce.
A luz não diminui quando é compartilhada.
Ela se multiplica.
Em um tempo marcado pela pressa, pelo exibicionismo e pela necessidade constante de reconhecimento, o ensinamento de Jesus continua extremamente atual.
Dar gratuitamente não é apenas uma questão financeira.
É uma postura do coração.
É ajudar sem humilhar.
É orientar sem dominar.
É acolher sem exigir retorno.
É compreender que aquilo que recebemos da vida como bênção também pode se transformar em bênção para os outros.
Talvez o mundo precise menos de discursos grandiosos e mais de pessoas dispostas a servir com simplicidade.
Porque, no fundo, quase tudo aquilo que realmente transforma a alma humana continua sendo gratuito:
- um gesto sincero;
- uma escuta fraterna;
- uma oração feita com amor;
- uma palavra de esperança no momento certo.
E isso, felizmente, ainda não pode ser comprado.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Mateus 10:8.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. FEB.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. FEB.
XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso, pelo Espírito Emmanuel. FEB.
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