Uma das lições mais difíceis do Evangelho
Entre os muitos ensinamentos de Jesus que desafiam a nossa transformação moral, poucos são tão diretos e, ao mesmo tempo, tão difíceis de viver quanto este:
“Não julgueis, para que não sejais julgados.” A frase, conhecida por muitos, é curta. Mas sua exigência espiritual é imensa. Ela mexe com o orgulho, com a vaidade, com a pressa de opinar, com a necessidade de nos sentirmos melhores que os outros e, sobretudo, com a tendência humana de olhar primeiro para a falha alheia, esquecendo as próprias imperfeições.
Vivemos cercados de situações em que o julgamento se tornou quase automático. Julga-se pela aparência, por uma palavra mal colocada, por uma atitude isolada, por uma queda visível, por uma escolha da qual não gostamos ou por uma fraqueza que, em nós mesmos, talvez receberia outro nome: cansaço, sofrimento, impulso, fragilidade, momento difícil. Com frequência, somos severos com o próximo e indulgentes conosco. Por isso, a advertência de Jesus permanece tão atual.
No Evangelho de Mateus, o Cristo ensina: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós.” Logo em seguida, Ele nos oferece uma imagem profundamente educativa: “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?” A lição é clara. Antes de observarmos o erro do outro, somos chamados a examinar com sinceridade o nosso próprio coração.
Essa palavra de Jesus não proíbe o discernimento moral. O Evangelho não nos convida à cegueira diante do bem e do mal, nem à omissão diante da injustiça. O que o Cristo condena é outra coisa: a atitude de superioridade, a condenação impiedosa, a crítica destrutiva, o prazer de acusar e a falsa autoridade com que tantas vezes pronunciamos sentenças sobre a vida alheia. Discernir é necessário; condenar, não.
Essa diferença é importante. Discernir é reconhecer que determinada atitude está errada. Julgar, no sentido moral censurado por Jesus, é assumir o lugar de quem se considera acima do outro, como se pudesse conhecer toda a sua história, as suas intenções, as suas lutas íntimas e o grau exato de sua responsabilidade perante Deus. E isso nenhum de nós pode fazer com justiça perfeita.
A dificuldade de não julgar nasce, em grande parte, de nossa própria imperfeição. O orgulho nos faz acreditar que vemos com clareza aquilo que, na verdade, enxergamos apenas em parte. A vaidade moral nos leva a exagerar a falha alheia para aliviar a consciência sobre nossas próprias quedas. A impaciência nos torna duros. A falta de caridade nos torna frios. E a ausência de autoconhecimento nos faz esquecer que também somos Espíritos em aprendizado, necessitados da indulgência que, muitas vezes, recusamos aos outros.
É precisamente aí que os ensinamentos de Allan Kardec iluminam a proposta do Evangelho. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, ao comentar a orientação de Jesus sobre o julgamento, Kardec mostra que o verdadeiro homem de bem é severo consigo mesmo e indulgente para com os defeitos dos outros. Essa inversão é essencial. O problema é que, em geral, fazemos o oposto: justificamos nossas faltas, mas ampliamos as faltas do próximo.
A Doutrina Espírita ensina que todos estamos submetidos à lei de progresso. Ninguém está pronto. Ninguém chegou ao ponto final da evolução. Todos trazemos lutas íntimas, imperfeições a vencer, débitos do passado, provas do presente e desafios que, muitas vezes, só Deus conhece em profundidade. Quando julgamos com dureza, esquecemos essa realidade espiritual. Esquecemos que a pessoa que hoje erra pode estar lutando silenciosamente para se reerguer. Esquecemos também que, em outras circunstâncias, talvez fôssemos nós a cair na mesma prova.
Kardec, ao tratar da indulgência, propõe uma reflexão de grande valor moral: se conhecêssemos todas as circunstâncias que cercam a conduta de alguém, talvez fôssemos menos severos. Quantas vezes vemos apenas o ato exterior, sem conhecer a dor interior? Quantas vezes enxergamos a falha, mas ignoramos o contexto? Quantas vezes condenamos uma pessoa por um instante, esquecendo todo o esforço que ela já fez para melhorar?
No Evangelho segundo Lucas, Jesus reforça essa lição de forma ainda mais ampla: “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados.” Aqui, o Mestre liga diretamente o não julgamento ao perdão. Isso mostra que a solução para a tendência de julgar não está apenas em nos calarmos externamente, mas em trabalharmos internamente a misericórdia. A alma que aprende a perdoar julga menos. A alma que reconhece a própria fragilidade condena menos. A alma que entende a necessidade da graça divina torna-se mais humilde diante do erro alheio.
Não julgar é difícil porque exige vigilância constante. O pensamento julga antes mesmo da boca falar. Às vezes, não pronunciamos palavras duras, mas alimentamos internamente desprezo, ironia, impaciência, desejo de reprovação. Outras vezes, o julgamento aparece disfarçado de zelo, de sinceridade ou de defesa da verdade. No fundo, porém, pode estar apenas o velho ego querendo se afirmar.
É por isso que Jesus nos pede reforma íntima e não apenas comportamento externo. Ele quer tocar a raiz do problema. Quando fala da trave em nosso próprio olho, o Cristo está nos convidando ao exame de consciência. Antes de perguntar o que há de errado com o outro, deveríamos perguntar o que ainda precisa ser corrigido em nós. Antes de analisar a consciência alheia, deveríamos analisar a nossa. Antes de exigir perfeição do próximo, deveríamos lembrar que também caminhamos lentamente.
O Espiritismo confirma esse caminho ao valorizar o autoconhecimento como base do progresso moral. Em O Livro dos Espíritos, quando Kardec pergunta qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, tal como a entendia Jesus, os Espíritos respondem: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.” Essa definição é preciosa. Ela mostra que a indulgência não é um detalhe secundário da vida cristã; ela faz parte do próprio núcleo da caridade.
Assim, quem deseja viver o Evangelho não pode limitar a caridade apenas à esmola material, ao gesto visível ou à ajuda concreta. A caridade também precisa alcançar o olhar, a interpretação que fazemos dos outros, a forma como comentamos sua vida, a maneira como reagimos aos seus erros. Há pessoas que jamais fariam mal fisicamente a alguém, mas ferem profundamente por meio de julgamentos precipitados, comentários cruéis e falta de compaixão.
Outro ponto importante é lembrar que não julgar não significa aprovar tudo. O Evangelho não anula a responsabilidade moral. O erro continua sendo erro. O mal continua sendo mal. O que muda é a forma de lidar com isso. Podemos reprovar uma atitude sem destruir a dignidade da pessoa. Podemos orientar sem humilhar. Podemos corrigir sem condenar. Podemos defender a verdade sem perder a caridade. Jesus nunca foi conivente com o mal, mas jamais agiu com a dureza orgulhosa dos que se colocam como juízes absolutos.
Aliás, um dos episódios mais comoventes do Evangelho ilustra justamente isso: o caso da mulher adúltera. Diante dos acusadores que queriam apedrejá-la, Jesus diz: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Com essa resposta, o Mestre não afirma que o erro não existia. Ele apenas desmonta a hipocrisia dos que condenavam o próximo esquecidos de si mesmos. A justiça sem misericórdia se transforma em violência moral.
Esse ensinamento dialoga profundamente com a vida contemporânea. Hoje, muitas vezes, a sociedade se organiza em torno de julgamentos públicos, exposições, cancelamentos e acusações rápidas. Fala-se muito, ouve-se pouco. Condena-se muito, compreende-se pouco. Em vez de ajudar alguém a se levantar, prefere-se apontar sua queda. Em vez de agir com prudência, reage-se com agressividade. Nesse cenário, a palavra de Jesus não perdeu força; ao contrário, tornou-se ainda mais necessária.
Para o cristão e, de modo especial, para o espírita, essa lição deve produzir um movimento interior muito concreto. É preciso aprender a substituir o impulso de julgar pelo esforço de compreender. Substituir a crítica pela prece. Substituir a condenação pelo auxílio possível. Substituir a curiosidade sobre a vida alheia pela vigilância sobre a própria consciência. Nem sempre conseguiremos de imediato. Mas esse é o caminho.
Talvez uma pergunta simples possa nos ajudar: eu gostaria de ser julgado da maneira como estou julgando? Se Deus permitisse que nossas próprias quedas fossem observadas com a mesma dureza com que observamos as dos outros, como nos sentiríamos? A resposta a essa pergunta costuma nos tornar mais humildes. E a humildade é remédio poderoso contra o julgamento.
Em O Céu e o Inferno, Kardec reforça a ideia de que a justiça divina considera aquilo que o olhar humano não alcança: intenções, arrependimento, esforço, contexto moral, grau de consciência e possibilidades reais de escolha. Deus vê o Espírito integralmente. Nós, não. Daí a necessidade de prudência. Quando julgamos com precipitação, agimos como se soubéssemos o que não sabemos.
Não julgar, portanto, é mais do que uma regra de convivência. É uma disciplina da alma. É uma forma de caridade. É um exercício de humildade. É uma prova de maturidade espiritual. É um sinal de que começamos a compreender que todos estamos no mesmo caminho evolutivo, ainda que em etapas diferentes.
Ao final, a lição de Jesus não nos deixa sem direção. Ela nos aponta um ideal possível: sermos firmes com nossas próprias imperfeições e misericordiosos com as imperfeições alheias. Isso não nos tornará fracos, mas humanos. Não nos tornará coniventes, mas justos. Não nos tornará indiferentes, mas caridosos.
Que aprendamos, pouco a pouco, a trocar a pedra pela compreensão. Que, diante da fraqueza do outro, recordemos nossas próprias lutas. Que, antes de falar, oremos. Que, antes de acusar, reflitamos. Que, antes de medir a consciência alheia, examinemos a nossa. E que a lição do Cristo encontre em nós não apenas admiração, mas esforço sincero de vivência.
Porque, no fundo, quem deixa de julgar com arrogância começa a amar com mais verdade.
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus. Capítulo 7, versículos 1 a 5. In: ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada. Edição corrigida e fiel.
Trechos centrais utilizados no artigo: “Não julgueis, para que não sejais julgados”; “Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados”; “E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?”.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Lucas. Capítulo 6, versículo 37. In: ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada. Edição corrigida e fiel.
Trecho utilizado no artigo: “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados.”
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo João. Capítulo 8, versículo 7. In: ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada. Edição corrigida e fiel.
Trecho utilizado no artigo: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira.
Capítulo X – Bem-aventurados os misericordiosos.
Item 11 – “Não julgueis, para não serdes julgados. Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”.
Item 13 – “Que se atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado”.
Item 14 – “Não julgueis, para não serdes julgados”.
Item 16 – “A indulgência”.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília: Federação Espírita Brasileira.
Livro Terceiro – Das leis morais.
Capítulo XI – Da lei de justiça, de amor e de caridade.
Questão 886 – “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?”
Resposta: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”
Capítulo XII – Da perfeição moral.
Questões 913 a 919 – estudo do conhecimento de si mesmo, do combate às más inclinações e do aperfeiçoamento moral.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. Brasília: Federação Espírita Brasileira.
Primeira Parte – Doutrina.
Capítulo VII – As penas futuras segundo o Espiritismo.
Especialmente os trechos que tratam da justiça divina em contraste com a limitação dos julgamentos humanos e da responsabilidade moral do Espírito conforme suas intenções, consciência e esforço de regeneração.