No capítulo XI de O Evangelho segundo o Espiritismo, intitulado “Amar o próximo como a si mesmo”, Allan Kardec reúne importantes ensinamentos sobre a caridade, o amor ao próximo e a vivência moral do Evangelho.
Dentro desse capítulo, a instrução espiritual chamada “A Lei de Amor” aparece nos itens 8, 9 e 10. No item 8, o Espírito Lázaro afirma que o amor resume toda a doutrina de Jesus. No item 9, o Espírito Fénelon aprofunda esse ensinamento, mostrando que a prática da Lei de Amor exige que aprendamos, pouco a pouco, a amar todos os nossos irmãos indistintamente.
É especialmente sobre esse ponto que desejamos refletir.
O amor que ainda se limita ao círculo íntimo
Fénelon observa que muitos de nós ainda restringimos o amor ao pequeno círculo dos familiares, amigos e pessoas queridas. Amamos aqueles que nos fazem bem, aqueles que convivem conosco, aqueles que nos são simpáticos ou úteis.
Esse amor, embora legítimo, ainda é limitado.
Ele pode ser sincero, mas permanece preso aos laços de preferência pessoal. Amamos os que são “nossos”, mas muitas vezes ficamos indiferentes aos demais. Sofremos com a dor de quem está perto, mas ignoramos a dor de quem está longe. Protegemos os nossos interesses, mas nem sempre conseguimos enxergar o próximo como irmão.
É nesse ponto que a Lei de Amor nos chama à ampliação do coração.
Amar como Deus entende o amor
No item 9, Fénelon ensina que, para praticarmos a Lei de Amor como Deus a entende, precisamos chegar, passo a passo, a amar todos os nossos irmãos indistintamente.
Essa expressão é muito importante: passo a passo.
O Espiritismo não nos apresenta uma transformação moral ilusória, feita de um dia para o outro. A Doutrina Espírita reconhece nossas limitações, mas nos convida ao progresso constante.
Amar a todos indistintamente não significa sentir a mesma intimidade por todas as pessoas. Não significa concordar com tudo, nem aprovar o erro, nem abandonar a prudência. Significa, antes de tudo, reconhecer que todos somos filhos de Deus, Espíritos imortais em processo de aprendizado.
Amar, nesse sentido, é desejar o bem.
É não alimentar ódio.
É não desejar vingança.
É não desprezar ninguém.
É compreender que até aquele que erra continua sendo um irmão necessitado de esclarecimento, correção e misericórdia.
A Lei de Amor educa o sentimento
No item 8, Lázaro ensina que o amor é o sentimento por excelência e que os sentimentos representam os instintos elevados à altura do progresso já realizado. Essa ideia nos ajuda a compreender que o amor também precisa ser educado.
Em nossa origem espiritual, predominam os impulsos mais primitivos. Com o progresso, vamos aprendendo a dominar os instintos, a refinar as emoções e a desenvolver sentimentos mais elevados.
A Lei de Amor é, portanto, uma escola de aperfeiçoamento interior.
Ela nos ensina a transformar posse em cuidado.
Apego em dedicação.
Simpatia em fraternidade.
Indiferença em compaixão.
Orgulho em humildade.
Egoísmo em caridade.
Amar não é apenas sentir algo bonito. É trabalhar dentro de si mesmo para que o bem se torne mais forte do que o orgulho, a impaciência e a indiferença.
Amor e caridade: duas faces da mesma lei
Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Kardec pergunta qual é o verdadeiro sentido da palavra caridade, como Jesus a entendia. A resposta dos Espíritos é uma das mais conhecidas da Codificação:
“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”
Essa definição complementa perfeitamente a reflexão de Fénelon.
Se a Lei de Amor nos pede amar todos os irmãos indistintamente, a caridade nos mostra como esse amor deve se manifestar na prática.
Benevolência é querer o bem e agir em favor do bem.
Indulgência é compreender que o outro, assim como nós, ainda está em construção.
Perdão é libertar o coração do ressentimento, sem transformar a ofensa recebida em prisão espiritual.
Desse modo, a Lei de Amor deixa de ser apenas uma ideia elevada e se torna exercício diário.
Ela aparece na paciência com quem pensa diferente.
Na palavra serena diante da provocação.
Na ajuda oferecida sem interesse.
Na escuta respeitosa.
Na renúncia ao julgamento apressado.
Na capacidade de corrigir sem humilhar.
Na disposição de servir sem esperar reconhecimento.
A Lei de Amor e o combate ao egoísmo
O grande adversário da Lei de Amor é o egoísmo.
Enquanto o egoísmo centraliza tudo no “eu”, o amor nos ensina a enxergar o “nós”. Enquanto o egoísmo separa, o amor aproxima. Enquanto o egoísmo alimenta privilégios, o amor desperta responsabilidade.
No próprio capítulo XI de O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec também inclui instruções sobre o egoísmo, apresentado como uma das grandes chagas da Humanidade. Essa ligação é muito significativa, pois não há verdadeira vivência do amor sem o esforço de vencer o egoísmo dentro de nós.
A Lei de Amor nos pede coragem: não a coragem de vencer o outro, mas a coragem de vencer a nós mesmos.
Vencer a irritação.
Vencer a vaidade.
Vencer o orgulho ferido.
Vencer a vontade de revidar.
Vencer a indiferença diante da dor alheia.
Cada pequena vitória íntima abre espaço para que o amor se manifeste com mais liberdade.
Amar a todos não é ser ingênuo
É importante lembrar que amar indistintamente não significa ser ingênuo, permitir abusos ou aceitar injustiças.
Jesus nos ensinou o amor, mas também nos ensinou a verdade, a responsabilidade e a firmeza moral. A caridade não dispensa o discernimento. O perdão não elimina a necessidade de reparação. A misericórdia não transforma o erro em virtude.
Amar é desejar que o outro se eleve.
Às vezes, esse amor se manifesta pela ternura. Em outras situações, pela orientação firme, pela distância necessária, pelo silêncio prudente ou pela correção justa.
A Lei de Amor não nos pede fraqueza. Ela nos pede elevação moral.
O caminho é progressivo
Fénelon nos consola ao indicar que esse aprendizado acontece passo a passo.
Isso significa que não devemos desanimar diante das próprias dificuldades. Talvez ainda não consigamos amar como gostaríamos. Talvez ainda guardemos mágoas, resistências, impaciências e julgamentos. Mas cada esforço sincero tem valor diante de Deus.
Hoje, podemos começar por não alimentar ódio.
Depois, podemos evitar a palavra que fere.
Mais adiante, aprenderemos a compreender.
Depois, a perdoar.
E, com o tempo, a amar com mais largueza, reconhecendo em cada pessoa um irmão de caminhada.
A Lei de Amor é uma construção diária.
Conclusão
A Lei de Amor é uma das expressões mais profundas da moral ensinada por Jesus e explicada pelo Espiritismo.
Lázaro nos recorda que o amor resume a doutrina do Cristo. Fénelon nos mostra que esse amor precisa crescer, ultrapassando o círculo estreito dos afetos pessoais para alcançar todos os irmãos indistintamente.
Amar, segundo a Lei Divina, é ampliar o coração.
É desejar o bem.
É praticar a caridade.
É combater o egoísmo.
É perdoar.
É servir.
É reconhecer que todos somos filhos do mesmo Pai, ainda que em diferentes graus de entendimento e evolução.
Que possamos, passo a passo, educar nossos sentimentos e permitir que a Lei de Amor deixe de ser apenas uma bela lição estudada, para se tornar uma presença viva em nossas escolhas, palavras e atitudes.
Referências bibliográficas
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XI — “Amar o próximo como a si mesmo”. Itens 8, 9, 10 e 11. Instruções dos Espíritos: “A Lei de Amor” e “O Egoísmo”.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — “Das Leis Morais”. Capítulo XI — “Lei de Justiça, de Amor e de Caridade”. Questão 886.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XI — “Amar o próximo como a si mesmo”. Item 1 — “O mandamento maior”.
Sugestão de marcadores
Espiritismo, Evangelho segundo o Espiritismo, Lei de Amor, Amar o Próximo, Allan Kardec, Fénelon, Lázaro, Caridade, Reforma Íntima, Semear Para Colher
Para conferência: a Kardecpedia apresenta o item 9 como parte da instrução “A Lei de Amor”, com a orientação de Fénelon sobre amar todos os irmãos indistintamente; e a questão 886 de O Livro dos Espíritos define a caridade como benevolência, indulgência e perdão.
Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.
Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.
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