quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Amar os inimigos não é permitir que continuem nos machucando

Quando Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos”, ele propôs uma das lições mais difíceis do Evangelho. Afinal, como amar alguém que nos ofendeu, espalhou mentiras, praticou bullying, nos humilhou ou tentou nos prejudicar?

Para compreendermos esse ensinamento, precisamos primeiro esclarecer o significado da palavra “amar”. O capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo explica que Jesus não espera que tratemos um inimigo como tratamos um grande amigo.

Não somos obrigados a sentir carinho, manter intimidade ou confiar em quem já demonstrou querer nos fazer mal. A confiança precisa ser construída por meio de atitudes e pode ser perdida quando alguém abusa dela.

Portanto, amar um inimigo não significa gostar do que ele fez. Significa não permitir que o mal praticado por essa pessoa transforme também o nosso coração.

Quem é o nosso inimigo?

Quando ouvimos a palavra “inimigo”, talvez imaginemos alguém participando de uma guerra. Porém, em nossa vida diária, inimigo pode ser o colega que nos persegue na escola, a pessoa que inventa mentiras a nosso respeito, alguém que nos traiu ou até quem nos ataca pelas redes sociais.

Também pode ser alguém por quem alimentamos raiva durante muito tempo.

Nem sempre a outra pessoa continua pensando em nós. Às vezes, ela segue a própria vida, enquanto nós continuamos presos à ofensa. Nesse caso, a mágoa transforma-se em uma espécie de corrente: o ofensor pode estar distante, mas ainda ocupa nossos pensamentos e influencia nossas emoções.

Amar o inimigo começa quando decidimos romper essa corrente.

O que Jesus espera de nós?

Jesus espera que não respondamos ao mal com outro mal.

Isso significa não buscar vingança, não espalhar mentiras para revidar, não comemorar o sofrimento do outro e não utilizar os seus erros como desculpa para praticarmos os mesmos erros.

Segundo o capítulo XII, amar os inimigos é:

  • não guardar ódio;

  • perdoar, ainda que isso leve tempo;

  • não desejar o sofrimento de quem nos ofendeu;

  • não prejudicar essa pessoa;

  • ajudá-la, se estiver realmente necessitada e tivermos condições de fazê-lo;

  • desejar que ela reconheça os próprios erros e se transforme;

  • não impedir uma reconciliação sincera;

  • orar por ela;

  • responder ao mal com o bem.

Isso não acontece de uma hora para outra. O perdão pode ser um processo. Jesus não nos pede que finjamos que a dor não existe, mas que trabalhemos para que ela não se transforme em ódio.

Podemos começar com uma oração simples:

“Deus, ainda não consigo gostar dessa pessoa nem esquecer o que aconteceu. Mas não quero viver com ódio. Ajuda-me a encontrar paz e ajuda essa pessoa a compreender e corrigir os seus erros.”

Essa oração já representa um passo importante.

O que Jesus não espera de nós?

Jesus não espera que sejamos ingênuos.

Amar um inimigo não significa:

  • confiar imediatamente em quem nos traiu;

  • voltar a conviver com uma pessoa perigosa;

  • fingir que nada aconteceu;

  • aceitar agressões, humilhações ou abusos;

  • permanecer em uma amizade ou relacionamento que nos faz mal;

  • esconder o bullying de pais, responsáveis ou professores;

  • deixar de denunciar uma violência;

  • abandonar os nossos direitos;

  • permitir que o agressor continue fazendo novas vítimas;

  • sentir pelo inimigo o mesmo carinho que sentimos por um amigo.

Podemos perdoar alguém e, ao mesmo tempo, manter uma distância necessária. Podemos desejar que a pessoa melhore sem permitir que ela volte a entrar em nossa vida. Podemos recusar a vingança e ainda assim procurar ajuda, proteção e justiça.

Estabelecer limites não é odiar. Afastar-se de uma situação perigosa não é falta de caridade. Denunciar uma agressão não é vingança, desde que o objetivo seja proteger, corrigir e impedir que o mal continue.

Jesus nos pede misericórdia, mas não nos pede que colaboremos com o erro.

E o ensinamento de “oferecer a outra face”?

Essa expressão também costuma ser mal interpretada.

Oferecer a outra face não significa permanecer parado enquanto alguém continua nos agredindo. Significa recusar-se a responder com a mesma violência. É demonstrar que o comportamento errado do outro não terá poder para decidir quem nós seremos.

Imagine que alguém publique uma ofensa contra você na internet. Oferecer a outra face não é aceitar silenciosamente todas as agressões. Você pode bloquear a pessoa, guardar as provas, denunciar a publicação e procurar um adulto responsável. O que o Evangelho recomenda é que você não crie outra mentira, não organize uma vingança e não tente destruir a vida do agressor.

Isso exige muito mais coragem do que simplesmente revidar.

Por que devemos amar os inimigos?

Porque o ódio não corrige o passado. Ele apenas prolonga, dentro de nós, o mal que alguém começou.

Quando respondemos à ofensa com outra ofensa, formamos uma corrente: um machuca o outro, que revida, que volta a atacar. Alguém precisa interromper esse ciclo. Jesus nos convida a sermos essa pessoa.

Amar os inimigos também é uma vitória contra o orgulho. O orgulho deseja derrotar, humilhar e provar que o outro merece sofrer. O amor deseja que o erro termine e que todos possam aprender, reparar o mal e evoluir.

Isso não significa considerar certas atitudes menos graves. Significa compreender que nenhum ser humano é apenas o pior erro que já cometeu. Todos somos Espíritos em aprendizado, capazes de errar e também de mudar.

Quando desejamos sinceramente que alguém se transforme, estamos praticando uma forma elevada de amor.

Perdoar não é apagar as consequências

O perdão acontece em nosso coração; a reparação depende de quem praticou o mal.

Se alguém quebrou alguma coisa, deve consertá-la ou substituí-la. Se mentiu, deve reconhecer a verdade. Se feriu alguém, precisa assumir a responsabilidade. Se praticou um crime, poderá responder perante a lei.

Perdoar não significa impedir essas consequências. Significa não desejar que a pessoa sofra apenas para satisfazer a nossa raiva.

A justiça procura corrigir e proteger. A vingança procura fazer sofrer. Essa diferença é fundamental.

Uma escolha que fazemos todos os dias

Talvez você ainda não consiga olhar para quem o feriu e sentir paz. Isso não faz de você uma pessoa ruim. Somos seres humanos em processo de crescimento.

O importante é não alimentar conscientemente o desejo de vingança. Cada vez que desistimos de uma resposta cruel, evitamos uma fofoca, interrompemos um pensamento de ódio ou fazemos uma oração por alguém difícil, estamos aprendendo a amar como Jesus ensinou.

Amar os inimigos não é entregar novamente a chave da nossa casa a quem já tentou nos roubar. É apenas retirar dessa pessoa a chave do nosso coração, para que ela não continue aprisionando nossos pensamentos por meio da raiva.

Jesus não espera que chamemos de amigo quem ainda não se comporta como amigo. Ele espera que, mesmo diante do mal, não escolhamos nos transformar em inimigos também.

Essa é uma das maiores vitórias que podemos alcançar sobre nós mesmos.

Texto elaborado com base no capítulo XII — “Amai os vossos inimigos” — de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Amai os Vossos Inimigos: o que Jesus nos ensina à luz da Doutrina Espírita


“Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem.”
— Jesus, Mateus 5:44

Entre todos os ensinamentos de Jesus, talvez um dos mais difíceis de compreender e praticar seja: “Amai os vossos inimigos.”

Como amar alguém que nos ofendeu, prejudicou ou causou sofrimento? Será que Jesus espera que sintamos carinho por quem nos fez mal? Devemos continuar convivendo com pessoas que nos ferem?

À luz da Doutrina Espírita, amar os inimigos não significa sentir por eles a mesma afeição que dedicamos aos familiares e amigos. Também não significa concordar com atitudes erradas, aceitar injustiças ou permanecer em situações de violência e sofrimento.

Amar os inimigos significa, acima de tudo, não desejar o mal, não alimentar o ódio e não procurar vingança.

O inimigo também é um Espírito em aprendizado

A Doutrina Espírita nos ensina que todos somos Espíritos imortais, criados simples e ignorantes, caminhando gradualmente em direção ao aperfeiçoamento.

A pessoa que hoje age com crueldade, egoísmo ou ingratidão ainda não desenvolveu plenamente os sentimentos de fraternidade, compaixão e amor. Isso não torna suas atitudes corretas, mas nos ajuda a compreender que ela também é um Espírito imperfeito, assim como nós, necessitado de aprendizado e transformação.

Quando entendemos isso, deixamos de enxergar o ofensor apenas como alguém perverso e começamos a vê-lo como um irmão espiritualmente enfermo.

Essa compreensão não elimina a responsabilidade de quem praticou o mal. Cada pessoa responderá por suas escolhas diante das leis divinas. No entanto, impede que o erro do outro desperte em nós o desejo de cometer um novo erro por meio da vingança.

Perdoar não é aprovar

Perdoar não significa dizer que nada aconteceu. Também não significa permitir que a pessoa continue nos prejudicando.

Podemos perdoar e, ao mesmo tempo, estabelecer limites. Podemos nos afastar de uma convivência prejudicial, procurar ajuda, denunciar uma injustiça ou defender os nossos direitos sem alimentar ódio no coração.

A justiça procura corrigir e proteger. A vingança deseja fazer o outro sofrer.

Jesus não nos pede passividade diante do mal. Ele nos convida a agir com firmeza, porém sem crueldade; com prudência, porém sem rancor; com justiça, porém sem desejo de destruição.

O ódio nos mantém ligados ao ofensor

Quando conservamos mágoa, ressentimento e desejo de vingança, continuamos emocionalmente presos à pessoa que nos feriu.

Mesmo distante, ela permanece ocupando nossos pensamentos e perturbando nossa paz.

O perdão, portanto, é também uma forma de libertação. Ele não modifica necessariamente o passado nem transforma imediatamente o ofensor, mas começa a transformar aquele que perdoa.

Perdoar não é esquecer de uma hora para outra. Muitas feridas precisam de tempo, oração, reflexão e auxílio para cicatrizar. O importante é não alimentar voluntariamente o ressentimento.

Podemos começar dizendo a nós mesmos:

“Eu ainda não consigo amar essa pessoa, mas não desejo o seu mal. Entrego essa situação a Deus e peço forças para me libertar da mágoa.”

Esse já é um importante passo no caminho do perdão.

Orar por quem nos ofendeu

Jesus recomenda que oremos por aqueles que nos perseguem.

A oração por um adversário não deve ser feita para que Deus o castigue, mas para que ele seja esclarecido, encontre melhores caminhos e não continue causando sofrimento a si mesmo e aos outros.

Ao orarmos por quem nos feriu, também pedimos auxílio para o nosso próprio coração:

“Senhor, ajuda essa pessoa a compreender os seus erros. E ajuda-me para que a dor não se transforme em ódio dentro de mim.”

Talvez ainda não consigamos pronunciar essa prece com total sinceridade. Mesmo assim, a tentativa já demonstra o desejo de superar os sentimentos negativos.

A caridade começa no pensamento

Em O Livro dos Espíritos, a verdadeira caridade é apresentada como benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas.

Isso significa que a caridade não se manifesta apenas quando oferecemos alimento, roupas ou ajuda material. Ela também aparece quando evitamos humilhar, quando não espalhamos os erros de alguém, quando controlamos palavras agressivas e quando procuramos compreender antes de condenar.

É relativamente fácil fazer o bem a quem nos trata bem. O grande desafio espiritual começa quando somos chamados a agir corretamente diante de quem nos decepcionou.

É nesse momento que demonstramos se os ensinamentos de Jesus já começaram, verdadeiramente, a criar raízes em nosso coração.

As relações difíceis também nos ensinam

Segundo a Doutrina Espírita, muitas pessoas que se reencontram na vida presente já estiveram ligadas em existências anteriores.

Algumas relações difíceis podem representar reencontros destinados à reparação de erros, ao exercício da paciência, à reconciliação e ao aprendizado do perdão.

Não devemos, porém, afirmar que todo sofrimento atual seja castigo por alguma atitude do passado. Não conhecemos suficientemente a história espiritual de cada pessoa para fazer esse julgamento.

O que podemos compreender é que nenhuma experiência precisa ser inútil. Mesmo uma convivência dolorosa pode nos ensinar a estabelecer limites, desenvolver paciência, abandonar o orgulho e aprender a perdoar.

Amar é desejar que o outro também evolua

Amar um inimigo não é abraçá-lo enquanto ele nos agride. É desejar que ele desperte para o bem.

É não nos alegrarmos com sua queda. É não retribuirmos ofensa com ofensa. É reconhecermos que, apesar de seus erros, ele continua sendo filho de Deus e também está destinado à evolução.

Talvez ainda não sejamos capazes de sentir amor por quem nos feriu. Jesus conhece nossas limitações. Ele não exige que alcancemos de imediato a perfeição, mas espera que caminhemos em sua direção.

Podemos começar evitando a vingança. Depois, esforçando-nos para não falar mal. Em seguida, orando. Aos poucos, a mágoa poderá perder força, dando lugar à compreensão e à paz.

Uma semente para colher

Amar os inimigos é uma das maiores demonstrações de maturidade espiritual.

Não significa permitir o mal, mas impedir que o mal do outro passe a viver dentro de nós.

Quando escolhemos não odiar, semeamos paz. Quando perdoamos, semeamos liberdade. Quando oramos por quem nos ofendeu, semeamos fraternidade.

Talvez a colheita não aconteça imediatamente. Contudo, cada esforço sincero para substituir o ressentimento pela compreensão aproxima-nos do exemplo de Jesus.

Que possamos pedir diariamente:

“Senhor, ensina-me a perdoar sem compactuar com o erro, a defender-me sem desejar vingança e a enxergar, mesmo naquele que me feriu, um Espírito que também precisa aprender a amar.”

Porque amar os inimigos não é considerar correto o mal que praticaram. É não permitir que o mal praticado por eles destrua a paz e a bondade que estamos tentando construir dentro de nós.

Semear para Colher

Referências para estudo

  • Evangelho segundo Mateus, capítulo 5, versículos 43 a 48.
  • O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”.
  • O Livro dos Espíritos, questões 886 e 887.