Quando Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos”, ele propôs uma das lições mais difíceis do Evangelho. Afinal, como amar alguém que nos ofendeu, espalhou mentiras, praticou bullying, nos humilhou ou tentou nos prejudicar?
Para compreendermos esse ensinamento, precisamos primeiro esclarecer o significado da palavra “amar”. O capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo explica que Jesus não espera que tratemos um inimigo como tratamos um grande amigo.
Não somos obrigados a sentir carinho, manter intimidade ou confiar em quem já demonstrou querer nos fazer mal. A confiança precisa ser construída por meio de atitudes e pode ser perdida quando alguém abusa dela.
Portanto, amar um inimigo não significa gostar do que ele fez. Significa não permitir que o mal praticado por essa pessoa transforme também o nosso coração.
Quem é o nosso inimigo?
Quando ouvimos a palavra “inimigo”, talvez imaginemos alguém participando de uma guerra. Porém, em nossa vida diária, inimigo pode ser o colega que nos persegue na escola, a pessoa que inventa mentiras a nosso respeito, alguém que nos traiu ou até quem nos ataca pelas redes sociais.
Também pode ser alguém por quem alimentamos raiva durante muito tempo.
Nem sempre a outra pessoa continua pensando em nós. Às vezes, ela segue a própria vida, enquanto nós continuamos presos à ofensa. Nesse caso, a mágoa transforma-se em uma espécie de corrente: o ofensor pode estar distante, mas ainda ocupa nossos pensamentos e influencia nossas emoções.
Amar o inimigo começa quando decidimos romper essa corrente.
O que Jesus espera de nós?
Jesus espera que não respondamos ao mal com outro mal.
Isso significa não buscar vingança, não espalhar mentiras para revidar, não comemorar o sofrimento do outro e não utilizar os seus erros como desculpa para praticarmos os mesmos erros.
Segundo o capítulo XII, amar os inimigos é:
não guardar ódio;
perdoar, ainda que isso leve tempo;
não desejar o sofrimento de quem nos ofendeu;
não prejudicar essa pessoa;
ajudá-la, se estiver realmente necessitada e tivermos condições de fazê-lo;
desejar que ela reconheça os próprios erros e se transforme;
não impedir uma reconciliação sincera;
orar por ela;
responder ao mal com o bem.
Isso não acontece de uma hora para outra. O perdão pode ser um processo. Jesus não nos pede que finjamos que a dor não existe, mas que trabalhemos para que ela não se transforme em ódio.
Podemos começar com uma oração simples:
“Deus, ainda não consigo gostar dessa pessoa nem esquecer o que aconteceu. Mas não quero viver com ódio. Ajuda-me a encontrar paz e ajuda essa pessoa a compreender e corrigir os seus erros.”
Essa oração já representa um passo importante.
O que Jesus não espera de nós?
Jesus não espera que sejamos ingênuos.
Amar um inimigo não significa:
confiar imediatamente em quem nos traiu;
voltar a conviver com uma pessoa perigosa;
fingir que nada aconteceu;
aceitar agressões, humilhações ou abusos;
permanecer em uma amizade ou relacionamento que nos faz mal;
esconder o bullying de pais, responsáveis ou professores;
deixar de denunciar uma violência;
abandonar os nossos direitos;
permitir que o agressor continue fazendo novas vítimas;
sentir pelo inimigo o mesmo carinho que sentimos por um amigo.
Podemos perdoar alguém e, ao mesmo tempo, manter uma distância necessária. Podemos desejar que a pessoa melhore sem permitir que ela volte a entrar em nossa vida. Podemos recusar a vingança e ainda assim procurar ajuda, proteção e justiça.
Estabelecer limites não é odiar. Afastar-se de uma situação perigosa não é falta de caridade. Denunciar uma agressão não é vingança, desde que o objetivo seja proteger, corrigir e impedir que o mal continue.
Jesus nos pede misericórdia, mas não nos pede que colaboremos com o erro.
E o ensinamento de “oferecer a outra face”?
Essa expressão também costuma ser mal interpretada.
Oferecer a outra face não significa permanecer parado enquanto alguém continua nos agredindo. Significa recusar-se a responder com a mesma violência. É demonstrar que o comportamento errado do outro não terá poder para decidir quem nós seremos.
Imagine que alguém publique uma ofensa contra você na internet. Oferecer a outra face não é aceitar silenciosamente todas as agressões. Você pode bloquear a pessoa, guardar as provas, denunciar a publicação e procurar um adulto responsável. O que o Evangelho recomenda é que você não crie outra mentira, não organize uma vingança e não tente destruir a vida do agressor.
Isso exige muito mais coragem do que simplesmente revidar.
Por que devemos amar os inimigos?
Porque o ódio não corrige o passado. Ele apenas prolonga, dentro de nós, o mal que alguém começou.
Quando respondemos à ofensa com outra ofensa, formamos uma corrente: um machuca o outro, que revida, que volta a atacar. Alguém precisa interromper esse ciclo. Jesus nos convida a sermos essa pessoa.
Amar os inimigos também é uma vitória contra o orgulho. O orgulho deseja derrotar, humilhar e provar que o outro merece sofrer. O amor deseja que o erro termine e que todos possam aprender, reparar o mal e evoluir.
Isso não significa considerar certas atitudes menos graves. Significa compreender que nenhum ser humano é apenas o pior erro que já cometeu. Todos somos Espíritos em aprendizado, capazes de errar e também de mudar.
Quando desejamos sinceramente que alguém se transforme, estamos praticando uma forma elevada de amor.
Perdoar não é apagar as consequências
O perdão acontece em nosso coração; a reparação depende de quem praticou o mal.
Se alguém quebrou alguma coisa, deve consertá-la ou substituí-la. Se mentiu, deve reconhecer a verdade. Se feriu alguém, precisa assumir a responsabilidade. Se praticou um crime, poderá responder perante a lei.
Perdoar não significa impedir essas consequências. Significa não desejar que a pessoa sofra apenas para satisfazer a nossa raiva.
A justiça procura corrigir e proteger. A vingança procura fazer sofrer. Essa diferença é fundamental.
Uma escolha que fazemos todos os dias
Talvez você ainda não consiga olhar para quem o feriu e sentir paz. Isso não faz de você uma pessoa ruim. Somos seres humanos em processo de crescimento.
O importante é não alimentar conscientemente o desejo de vingança. Cada vez que desistimos de uma resposta cruel, evitamos uma fofoca, interrompemos um pensamento de ódio ou fazemos uma oração por alguém difícil, estamos aprendendo a amar como Jesus ensinou.
Amar os inimigos não é entregar novamente a chave da nossa casa a quem já tentou nos roubar. É apenas retirar dessa pessoa a chave do nosso coração, para que ela não continue aprisionando nossos pensamentos por meio da raiva.
Jesus não espera que chamemos de amigo quem ainda não se comporta como amigo. Ele espera que, mesmo diante do mal, não escolhamos nos transformar em inimigos também.
Essa é uma das maiores vitórias que podemos alcançar sobre nós mesmos.
Texto elaborado com base no capítulo XII — “Amai os vossos inimigos” — de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.