Durante muitos séculos, homens que se julgavam ofendidos desafiavam seus adversários para duelos. Espadas e armas de fogo eram usadas para defender aquilo que chamavam de honra. Bastava uma palavra considerada ofensiva, uma acusação ou uma humilhação pública para que duas pessoas colocassem a própria vida em risco.
Com o avanço das leis e o abrandamento dos costumes, essa prática foi desaparecendo. Entretanto, será que o espírito do duelo também desapareceu?
Mudaram as armas, mas nem sempre mudaram os sentimentos
Hoje, raramente alguém desafia outra pessoa para um combate com espadas ou pistolas. Os duelos modernos acontecem, muitas vezes, diante das telas dos celulares.
As armas agora podem ser palavras agressivas, comentários maldosos, vídeos de resposta, indiretas, exposições públicas, montagens, acusações e campanhas de cancelamento. Em vez de testemunhas reunidas em um campo, temos centenas ou milhares de espectadores acompanhando a discussão, compartilhando as ofensas e escolhendo um dos lados.
Uma pessoa publica uma crítica. A outra responde. A primeira publica uma réplica ainda mais dura. Amigos e seguidores entram na discussão. Em pouco tempo, o assunto deixa de ser uma simples divergência e se transforma numa batalha pública para decidir quem será humilhado e quem sairá vencedor.
O antigo duelista queria ferir o corpo do adversário. O duelista virtual procura atingir sua reputação, seus relacionamentos e sua paz.
Em ambos os casos, encontramos sentimentos semelhantes: orgulho ferido, desejo de vingança, necessidade de demonstrar força e preocupação excessiva com a opinião alheia.
O que o Evangelho nos ensina sobre os duelos?
No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado “Amai os vossos inimigos”, encontramos importantes reflexões sobre o duelo.
As instruções mostram que a verdadeira grandeza não está em destruir o adversário, mas em suportar as dificuldades da caminhada sem abandonar o caminho do bem. Quem se deixa desviar por cada provocação entrega ao ofensor o controle sobre seus próprios atos.
No item 12, o duelo é apresentado como uma demonstração de coragem física, mas também de covardia moral, porque o duelista não consegue suportar a ofensa. Essa observação continua muito atual.
Nas redes sociais, alguém pode imaginar que responder imediatamente, atacar com palavras mais duras ou expor publicamente o outro seja uma demonstração de coragem. Entretanto, muitas vezes é preciso muito mais força para controlar o impulso, silenciar no momento adequado e escolher uma resposta equilibrada.
O silêncio consciente não é necessariamente fraqueza. Em determinadas situações, ele representa domínio próprio.
A falsa defesa da honra
Nos antigos duelos, o agressor alegava que precisava defender sua honra diante da sociedade. Hoje, também encontramos pessoas que afirmam:
“Não posso deixar isso sem resposta.”
“Preciso mostrar quem está certo.”
“Se eu me calar, vão pensar que sou fraco.”
“Vou expor essa pessoa para que todos saibam quem ela é.”
Mas que espécie de honra é preservada por meio da humilhação, do ódio e da vingança?
A verdadeira honra não depende dos aplausos do público nem da derrota do adversário. Ela se revela na consciência tranquila, na coerência entre aquilo que acreditamos e a maneira como agimos.
Podemos até vencer uma discussão na internet e, ainda assim, sair moralmente derrotados. Podemos reunir milhares de pessoas contra alguém e, apesar disso, afastarmo-nos dos ensinamentos de Jesus.
Quando a plateia alimenta o conflito
Os duelos antigos costumavam ter testemunhas. Os duelos virtuais também possuem plateias — e, muitas vezes, são elas que aumentam o conflito.
Curtidas, compartilhamentos e comentários podem incentivar os envolvidos a continuar a batalha. A discussão passa a gerar audiência, e a audiência alimenta novas agressões.
Por isso, também precisamos refletir sobre nossa responsabilidade como espectadores. Compartilhar uma humilhação, rir de um ataque ou incentivar alguém a “não deixar barato” é colaborar com o duelo.
Nem sempre somos os combatentes. Algumas vezes, somos aqueles que oferecem as armas.
Amar os inimigos não significa aceitar abusos
O ensinamento de Jesus sobre oferecer a outra face não significa que devemos aceitar injustiças, ameaças ou violências passivamente.
É legítimo corrigir uma informação falsa, estabelecer limites, bloquear uma pessoa, denunciar uma publicação ofensiva e procurar as autoridades quando houver ameaça, perseguição ou crime. Também podemos discordar firmemente de ideias e comportamentos.
A diferença está na intenção.
Uma coisa é buscar proteção, esclarecimento ou justiça. Outra é desejar vingança, humilhar o adversário e fazê-lo sofrer.
A prudência procura interromper o mal. A vingança procura devolver o mal.
Antes de responder, é preciso refletir
Entre a provocação e a resposta existe um espaço precioso no qual podemos escolher quem desejamos ser.
Antes de entrar em um duelo virtual, podemos perguntar:
Minha resposta ajudará a esclarecer ou apenas aumentará o conflito?
Estou defendendo uma causa justa ou apenas meu orgulho ferido?
Eu diria pessoalmente aquilo que estou prestes a escrever?
Gostaria que essas palavras fossem dirigidas a alguém que amo?
Minha atitude está de acordo com o ensinamento de Jesus?
É necessário responder agora ou seria melhor esperar que as emoções se acalmassem?
A internet favorece respostas rápidas, mas a vida espiritual exige reflexão. Uma mensagem escrita em poucos segundos pode produzir consequências durante muitos anos.
A nobre rivalidade do bem
No item 11, Santo Agostinho fala de um futuro no qual não existirá entre os homens outro antagonismo além da “nobre rivalidade do bem”.
Essa é uma belíssima proposta para nossos tempos.
Em vez de competir para descobrir quem ofende melhor, podemos competir no bem: quem compreende mais, quem perdoa primeiro, quem consegue pacificar, quem espalha palavras mais úteis e quem oferece o melhor exemplo.
As redes sociais podem ser campos de batalha, mas também podem transformar-se em campos de semeadura. A escolha depende do conteúdo que publicamos, das palavras que usamos e dos sentimentos que alimentamos.
Embainhar a espada digital
Os duelos antigos foram se tornando raros, mas ainda precisamos extinguir seus vestígios dentro de nós. A espada pode ter sido substituída pelo celular, e a pólvora, pela palavra — porém a raiz do conflito continua sendo o orgulho.
Seguir Jesus não significa nunca ser ofendido. Significa aprender a não permitir que a ofensa determine nossa conduta.
Quando recusamos o convite para uma disputa inútil, não estamos fugindo. Estamos escolhendo uma batalha mais difícil e mais importante: aquela travada contra nossas próprias tendências à cólera, ao orgulho e à vingança.
Embainhar a espada digital, respirar antes de responder e retribuir o mal com o bem são atitudes de coragem moral.
Talvez não consigamos transformar toda a internet de uma só vez. Mas podemos começar pelo espaço que ocupamos nela. Cada palavra de paz é uma semente. E toda semente de fraternidade ajuda a preparar o mundo para aquele reino de amor anunciado pelo Evangelho.
Referência
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”, especialmente os itens 11 a 16: “O duelo”. Tradução conforme a edição consultada.
Texto disponível para consulta na KardecPedia – Capítulo XII, O Duelo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário