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terça-feira, 8 de setembro de 2026

O ódio e o desafio de amar os inimigos

Há ensinamentos de Jesus que nos confortam imediatamente. Outros, porém, nos desafiam profundamente, porque exigem uma mudança na maneira como sentimos, pensamos e reagimos. Entre estes está uma das recomendações mais difíceis do Evangelho:

«“Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam.”

Lucas 6:27-28»

No Sermão da Montanha, encontramos orientação semelhante:

«“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”

Mateus 5:44»

Mas como amar alguém que nos prejudicou? Como desejar o bem daquele que nos feriu, traiu ou humilhou?

É justamente nesse ponto que a mensagem de Fénelon, apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ajuda-nos a compreender a profundidade do ensinamento de Jesus.

O ódio segundo Fénelon

No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, dedicado ao ensinamento “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec apresenta uma instrução de Fénelon sobre o ódio.

Fénelon ensina:

«“Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Tomai sobretudo a peito amar os que vos inspiram indiferença, ódio e desprezo.”»

A orientação chama atenção justamente porque não se limita às pessoas que nos tratam bem. Amar aqueles que nos amam é relativamente fácil. O verdadeiro desafio moral aparece diante daqueles que despertam em nós sentimentos negativos.

O ódio aprisiona quem odeia.

Quando alimentamos continuamente a lembrança de uma ofensa, permitimos que um acontecimento do passado continue exercendo influência sobre o presente. A pessoa pode até ter seguido sua vida, enquanto nós permanecemos presos à mágoa, revivendo mentalmente discussões, palavras e acontecimentos.

Por isso, combater o ódio não significa simplesmente beneficiar aquele que nos fez mal. Significa também libertar a nós mesmos.

“Amai os vossos inimigos”

Jesus já havia mostrado que o amor cristão precisava ultrapassar a lógica da reciprocidade:

«“Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?”

Mateus 5:46»

É fácil ser gentil com quem é gentil conosco. É fácil desejar felicidade a quem nos deseja felicidade.

A proposta de Jesus começa justamente onde essa facilidade termina.

Entretanto, amar um inimigo não significa sentir por ele a mesma afeição que sentimos por um familiar ou amigo querido.

No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec esclarece esse ponto. Amar os inimigos não significa necessariamente experimentar por eles uma ternura impossível de ser produzida pela simples vontade. Significa não lhes desejar o mal, não responder ao mal com o mal, não alimentar vingança e, quando possível, desejar-lhes o progresso e o bem.

Assim, o amor aos inimigos é, antes de tudo, uma decisão moral.

Talvez eu ainda não consiga abraçar quem me feriu.

Talvez eu ainda sinta tristeza quando me lembro do acontecimento.

Talvez precise estabelecer limites e até me afastar daquela pessoa.

Mas posso decidir que não quero odiá-la.

E essa decisão já representa um importante passo no caminho indicado por Jesus.

Amar não significa aceitar tudo

Esse ensinamento precisa ser compreendido com equilíbrio.

Amar os inimigos não significa permanecer em situações de violência, abuso, humilhação ou desrespeito. O Evangelho não nos pede que abandonemos a prudência nem que deixemos de estabelecer limites.

Podemos perdoar e manter distância.

Podemos desejar o bem de alguém e não permitir que essa pessoa volte a nos prejudicar.

Podemos não guardar ódio e, ao mesmo tempo, procurar a Justiça quando necessário.

O contrário do ódio não é a submissão ao mal. É a recusa em permitir que o mal recebido determine aquilo em que nós mesmos nos transformaremos.

Três situações do cotidiano

Imagine alguém que foi injustamente prejudicado no trabalho. Um colega espalhou uma mentira e isso trouxe consequências profissionais. A reação imediata pode ser desejar que o outro também fracasse. Amar o inimigo, nesse caso, não significa fingir que nada aconteceu. A pessoa pode esclarecer os fatos e defender seus direitos, mas sem transformar a busca por justiça em desejo de vingança.

Em uma família, uma discussão pode produzir palavras extremamente dolorosas. Às vezes, passam-se meses ou anos e ninguém quer dar o primeiro passo. Amar o inimigo pode começar com algo muito pequeno: parar de alimentar comentários contra aquela pessoa, deixar de recontar continuamente a ofensa e fazer uma oração por ela.

Nas redes sociais, alguém nos agride gratuitamente. A facilidade de responder imediatamente pode transformar uma simples discordância em uma sequência de insultos. Aplicar o Evangelho talvez signifique simplesmente não devolver a agressão. Podemos discordar, esclarecer nossa posição ou encerrar a conversa sem reproduzir o comportamento daquele que nos atacou.

São atitudes aparentemente pequenas, mas é justamente no cotidiano que o Evangelho deixa de ser apenas leitura e passa a ser experiência.

Fénelon e Jesus apontam para a mesma transformação

A mensagem de Fénelon nos ajuda a perceber que o mandamento de Jesus não é uma recomendação abstrata.

Quando Cristo diz “Amai os vossos inimigos”, está propondo uma ruptura com o ciclo que perpetua tantos conflitos humanos:

ofensa → ódio → vingança → nova ofensa.

Alguém precisa interromper esse ciclo.

O Evangelho convida-nos a ser essa pessoa.

Isso não acontece de uma hora para outra. Há feridas que exigem tempo. Há lembranças que ainda doem. Há situações nas quais talvez consigamos inicialmente apenas não revidar.

Mas também isso pode ser um começo.

Hoje não consigo amar? Posso tentar não odiar.

Ainda não consigo perdoar completamente? Posso começar deixando de desejar vingança.

Não consigo conviver com aquela pessoa? Posso manter a distância necessária sem desejar sua infelicidade.

Pouco a pouco, o sentimento se transforma.

A contribuição da visão espírita

Sob a perspectiva espírita, o ensinamento ganha ainda outra dimensão. Se somos Espíritos imortais em processo de aperfeiçoamento, os conflitos desta existência não representam necessariamente o começo nem o fim de nossas relações.

A reencarnação oferece oportunidades de aprendizado, reparação e reconciliação.

Aquele que hoje consideramos inimigo é também um Espírito em caminhada, sujeito a erros, quedas e aprendizado — assim como nós.

Isso não torna correta a injustiça praticada por ele. Mas muda nossa maneira de enxergá-lo.

Em vez de perguntar apenas “como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”, podemos acrescentar outra pergunta:

“O que farei com aquilo que me aconteceu?”

Transformarei a dor em ódio?

Ou procurarei transformá-la em aprendizado?

É nessa escolha que começa nossa própria renovação.

Para refletir

Amar os inimigos talvez seja uma das maiores provas da maturidade espiritual.

Não porque devamos gostar daquilo que fizeram conosco, mas porque nos recusamos a permitir que a atitude deles plante o ódio dentro de nós.

Fénelon nos chama a combater esse sentimento. Jesus nos mostra o caminho: amar, fazer o bem, bendizer e orar.

Talvez ainda estejamos muito distantes de viver integralmente esse ensinamento. Mas cada vez que recusamos a vingança, cada vez que controlamos uma palavra agressiva, cada vez que fazemos uma oração por alguém que nos feriu, uma pequena semente é lançada.

E quem deseja semear para colher precisa escolher cuidadosamente aquilo que planta no próprio coração.

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, 5:43-48.

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Lucas, 6:27-36.

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”, especialmente os itens referentes ao ódio e às instruções dos Espíritos.

FÉNELON. “O ódio”. In: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII.

domingo, 30 de agosto de 2026

Dia Mundial do Perdão: libertar o coração para seguir em frente


O Dia Mundial do Perdão, celebrado em 30 de agosto, convida à reflexão sobre uma atitude que pode transformar relações e, principalmente, nossa maneira de lidar com as próprias feridas. Perdoar não significa apagar o que aconteceu, considerar correto aquilo que nos prejudicou ou permitir que uma situação de violência, desrespeito ou injustiça continue acontecendo. O perdão pode existir ao lado de limites, afastamento, proteção e busca por justiça.

Muitas vezes, o ressentimento prolonga dentro de nós uma experiência que já terminou do lado de fora. A lembrança permanece acompanhada de raiva, tristeza, desejo de reparação ou perguntas que talvez nunca encontrem resposta. Nesse sentido, o perdão pode ser compreendido como um processo: aos poucos, a pessoa deixa de permitir que a ofensa ocupe permanentemente seus pensamentos e determine seus sentimentos.

Também é importante falar sobre o autoperdão. Há pessoas capazes de compreender os erros dos outros, mas extremamente severas consigo mesmas. Reconhecer uma falha, assumir suas consequências e procurar repará-la é diferente de viver indefinidamente sob o peso da culpa. O arrependimento saudável pode produzir mudança; a culpa sem perspectiva de transformação apenas aprisiona.

O perdão na visão espírita

Na Doutrina Espírita, o perdão está profundamente relacionado à caridade, à indulgência e ao progresso moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente no capítulo X — “Bem-aventurados os misericordiosos” — encontramos reflexões sobre o perdão das ofensas e sobre a necessidade de combater o ressentimento e o desejo de vingança. Sob essa perspectiva, perdoar não é demonstração de fraqueza, mas exercício de compreensão e crescimento espiritual. Isso não elimina a responsabilidade daquele que errou: cada pessoa continua responsável pelas consequências de seus atos.

A visão espírita também nos convida a considerar que todos somos Espíritos em processo de aprendizado, sujeitos a erros e necessitados de oportunidades de transformação. Por isso, a indulgência para com as imperfeições alheias caminha junto com o esforço de reconhecer e corrigir as nossas. O perdão sincero não exige necessariamente esquecer o acontecimento, reconstruir uma relação rompida ou voltar a conviver com quem nos fez mal. Ele representa, sobretudo, o esforço para não alimentar ódio ou vingança e para confiar à consciência, à vida e à justiça divina aquilo que não nos cabe resolver pelo ressentimento.

Neste Dia Mundial do Perdão, talvez a reflexão mais importante seja justamente esta: perdoar não muda o passado, mas pode mudar a relação que temos com ele. Algumas feridas precisam de tempo, outras exigem distância e proteção, e há situações em que o perdão é uma longa caminhada. O importante é compreender que abrir mão do rancor não significa absolver o erro — significa não permitir que ele continue governando nosso coração.


Texto e imagem produzidos com inteligência artificial.

Autor responsável: José Eduardo Thomé de Saboya Oliveira.