Há ensinamentos de Jesus que nos confortam imediatamente. Outros, porém, nos desafiam profundamente, porque exigem uma mudança na maneira como sentimos, pensamos e reagimos. Entre estes está uma das recomendações mais difíceis do Evangelho:
«“Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam.”
Lucas 6:27-28»
No Sermão da Montanha, encontramos orientação semelhante:
«“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.”
Mateus 5:44»
Mas como amar alguém que nos prejudicou? Como desejar o bem daquele que nos feriu, traiu ou humilhou?
É justamente nesse ponto que a mensagem de Fénelon, apresentada em O Evangelho Segundo o Espiritismo, ajuda-nos a compreender a profundidade do ensinamento de Jesus.
O ódio segundo Fénelon
No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, dedicado ao ensinamento “Amai os vossos inimigos”, Allan Kardec apresenta uma instrução de Fénelon sobre o ódio.
Fénelon ensina:
«“Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Tomai sobretudo a peito amar os que vos inspiram indiferença, ódio e desprezo.”»
A orientação chama atenção justamente porque não se limita às pessoas que nos tratam bem. Amar aqueles que nos amam é relativamente fácil. O verdadeiro desafio moral aparece diante daqueles que despertam em nós sentimentos negativos.
O ódio aprisiona quem odeia.
Quando alimentamos continuamente a lembrança de uma ofensa, permitimos que um acontecimento do passado continue exercendo influência sobre o presente. A pessoa pode até ter seguido sua vida, enquanto nós permanecemos presos à mágoa, revivendo mentalmente discussões, palavras e acontecimentos.
Por isso, combater o ódio não significa simplesmente beneficiar aquele que nos fez mal. Significa também libertar a nós mesmos.
“Amai os vossos inimigos”
Jesus já havia mostrado que o amor cristão precisava ultrapassar a lógica da reciprocidade:
«“Se amais os que vos amam, que recompensa tereis?”
Mateus 5:46»
É fácil ser gentil com quem é gentil conosco. É fácil desejar felicidade a quem nos deseja felicidade.
A proposta de Jesus começa justamente onde essa facilidade termina.
Entretanto, amar um inimigo não significa sentir por ele a mesma afeição que sentimos por um familiar ou amigo querido.
No capítulo XII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec esclarece esse ponto. Amar os inimigos não significa necessariamente experimentar por eles uma ternura impossível de ser produzida pela simples vontade. Significa não lhes desejar o mal, não responder ao mal com o mal, não alimentar vingança e, quando possível, desejar-lhes o progresso e o bem.
Assim, o amor aos inimigos é, antes de tudo, uma decisão moral.
Talvez eu ainda não consiga abraçar quem me feriu.
Talvez eu ainda sinta tristeza quando me lembro do acontecimento.
Talvez precise estabelecer limites e até me afastar daquela pessoa.
Mas posso decidir que não quero odiá-la.
E essa decisão já representa um importante passo no caminho indicado por Jesus.
Amar não significa aceitar tudo
Esse ensinamento precisa ser compreendido com equilíbrio.
Amar os inimigos não significa permanecer em situações de violência, abuso, humilhação ou desrespeito. O Evangelho não nos pede que abandonemos a prudência nem que deixemos de estabelecer limites.
Podemos perdoar e manter distância.
Podemos desejar o bem de alguém e não permitir que essa pessoa volte a nos prejudicar.
Podemos não guardar ódio e, ao mesmo tempo, procurar a Justiça quando necessário.
O contrário do ódio não é a submissão ao mal. É a recusa em permitir que o mal recebido determine aquilo em que nós mesmos nos transformaremos.
Três situações do cotidiano
Imagine alguém que foi injustamente prejudicado no trabalho. Um colega espalhou uma mentira e isso trouxe consequências profissionais. A reação imediata pode ser desejar que o outro também fracasse. Amar o inimigo, nesse caso, não significa fingir que nada aconteceu. A pessoa pode esclarecer os fatos e defender seus direitos, mas sem transformar a busca por justiça em desejo de vingança.
Em uma família, uma discussão pode produzir palavras extremamente dolorosas. Às vezes, passam-se meses ou anos e ninguém quer dar o primeiro passo. Amar o inimigo pode começar com algo muito pequeno: parar de alimentar comentários contra aquela pessoa, deixar de recontar continuamente a ofensa e fazer uma oração por ela.
Nas redes sociais, alguém nos agride gratuitamente. A facilidade de responder imediatamente pode transformar uma simples discordância em uma sequência de insultos. Aplicar o Evangelho talvez signifique simplesmente não devolver a agressão. Podemos discordar, esclarecer nossa posição ou encerrar a conversa sem reproduzir o comportamento daquele que nos atacou.
São atitudes aparentemente pequenas, mas é justamente no cotidiano que o Evangelho deixa de ser apenas leitura e passa a ser experiência.
Fénelon e Jesus apontam para a mesma transformação
A mensagem de Fénelon nos ajuda a perceber que o mandamento de Jesus não é uma recomendação abstrata.
Quando Cristo diz “Amai os vossos inimigos”, está propondo uma ruptura com o ciclo que perpetua tantos conflitos humanos:
ofensa → ódio → vingança → nova ofensa.
Alguém precisa interromper esse ciclo.
O Evangelho convida-nos a ser essa pessoa.
Isso não acontece de uma hora para outra. Há feridas que exigem tempo. Há lembranças que ainda doem. Há situações nas quais talvez consigamos inicialmente apenas não revidar.
Mas também isso pode ser um começo.
Hoje não consigo amar? Posso tentar não odiar.
Ainda não consigo perdoar completamente? Posso começar deixando de desejar vingança.
Não consigo conviver com aquela pessoa? Posso manter a distância necessária sem desejar sua infelicidade.
Pouco a pouco, o sentimento se transforma.
A contribuição da visão espírita
Sob a perspectiva espírita, o ensinamento ganha ainda outra dimensão. Se somos Espíritos imortais em processo de aperfeiçoamento, os conflitos desta existência não representam necessariamente o começo nem o fim de nossas relações.
A reencarnação oferece oportunidades de aprendizado, reparação e reconciliação.
Aquele que hoje consideramos inimigo é também um Espírito em caminhada, sujeito a erros, quedas e aprendizado — assim como nós.
Isso não torna correta a injustiça praticada por ele. Mas muda nossa maneira de enxergá-lo.
Em vez de perguntar apenas “como essa pessoa pôde fazer isso comigo?”, podemos acrescentar outra pergunta:
“O que farei com aquilo que me aconteceu?”
Transformarei a dor em ódio?
Ou procurarei transformá-la em aprendizado?
É nessa escolha que começa nossa própria renovação.
Para refletir
Amar os inimigos talvez seja uma das maiores provas da maturidade espiritual.
Não porque devamos gostar daquilo que fizeram conosco, mas porque nos recusamos a permitir que a atitude deles plante o ódio dentro de nós.
Fénelon nos chama a combater esse sentimento. Jesus nos mostra o caminho: amar, fazer o bem, bendizer e orar.
Talvez ainda estejamos muito distantes de viver integralmente esse ensinamento. Mas cada vez que recusamos a vingança, cada vez que controlamos uma palavra agressiva, cada vez que fazemos uma oração por alguém que nos feriu, uma pequena semente é lançada.
E quem deseja semear para colher precisa escolher cuidadosamente aquilo que planta no próprio coração.
Referências
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus, 5:43-48.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Lucas, 6:27-36.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XII — “Amai os vossos inimigos”, especialmente os itens referentes ao ódio e às instruções dos Espíritos.
FÉNELON. “O ódio”. In: KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII.
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