A pergunta que deu origem à parábola
Segundo o Evangelho de Lucas, um doutor da lei perguntou a Jesus o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. O Mestre o levou a recordar os dois grandes mandamentos: amar a Deus de todo o coração e amar o próximo como a si mesmo.
Desejando justificar-se, o homem fez outra pergunta:
“E quem é o meu próximo?”
Em vez de oferecer uma definição teórica, Jesus contou uma história.
Um homem descia de Jerusalém para Jericó quando foi atacado por ladrões. Roubaram-lhe os pertences, agrediram-no e o deixaram quase morto à beira do caminho. Um sacerdote passou pelo local, viu o ferido e seguiu adiante. Depois, um levita fez o mesmo. Finalmente, passou um samaritano. Ao encontrar o desconhecido naquela situação, compadeceu-se dele, tratou suas feridas, colocou-o sobre seu próprio animal, levou-o a uma hospedaria e assumiu as despesas necessárias ao seu cuidado.
Ao terminar a narrativa, Jesus perguntou qual dos três havia sido o próximo do homem ferido. O doutor da lei respondeu: “O que usou de misericórdia para com ele”. Então, o Mestre concluiu: “Vai e faze da mesma maneira”.
O próximo não é apenas aquele que está perto
A escolha de um samaritano como exemplo de bondade não foi casual. Judeus e samaritanos carregavam antigas divergências religiosas e culturais. Para muitos ouvintes de Jesus, seria surpreendente perceber que justamente o homem pertencente ao grupo desprezado foi quem demonstrou verdadeira compaixão.
O sacerdote e o levita viram o sofrimento, mas não permitiram que aquela visão modificasse seus caminhos. O samaritano também viu, porém fez algo a respeito. Aproximou-se, cuidou, transportou, procurou ajuda e assumiu responsabilidades. Sua caridade não permaneceu apenas no sentimento: transformou-se em ação.
Jesus também muda o sentido da pergunta inicial. O doutor da lei queria saber quem poderia ser considerado seu próximo, talvez procurando estabelecer os limites de sua obrigação. O Mestre, entretanto, ensina que a questão principal não é identificar quem merece o nosso amor, mas decidir de quem nós nos faremos próximos.
Três maneiras de viver essa parábola no dia a dia
1. Interromper a pressa para acolher alguém
Podemos viver a lição do Bom Samaritano quando reservamos alguns minutos para ouvir uma pessoa que está sofrendo, telefonamos para alguém que enfrenta a solidão, acompanhamos um familiar a uma consulta ou oferecemos ajuda a quem demonstra estar sobrecarregado.
Nem sempre será possível resolver o problema, mas podemos evitar a indiferença. Muitas vezes, o primeiro gesto de caridade consiste em parar, aproximar-se e escutar com atenção.
2. Auxiliar sem perguntar se a pessoa “merece”
O samaritano não investigou as opiniões, a religião, a origem ou os erros do homem ferido antes de ajudá-lo. Da mesma forma, podemos praticar a parábola quando socorremos alguém sem transformar a caridade em julgamento.
Isso acontece quando orientamos uma pessoa perdida, ajudamos um colega com quem não temos afinidade, tratamos com respeito quem pensa de maneira diferente ou oferecemos assistência a alguém em situação de vulnerabilidade. O sofrimento humano deve falar mais alto do que nossas diferenças.
3. Tornar a solidariedade concreta
A compaixão do samaritano envolveu atitudes, tempo, recursos e continuidade. Ele não se limitou a desejar que o ferido melhorasse: tratou suas feridas, levou-o a um lugar seguro e providenciou os cuidados seguintes.
No cotidiano, isso pode significar doar alimentos ou roupas em boas condições, colaborar com uma instituição séria, oferecer transporte a quem tem dificuldade de locomoção, compartilhar uma informação útil, defender a acessibilidade ou acompanhar alguém até que encontre a ajuda necessária. A boa intenção é valiosa, mas a caridade se completa quando produz alguma transformação concreta.
“Vai e faze da mesma maneira”
A Parábola do Bom Samaritano continua atual porque todos nós encontramos pessoas feridas pelos caminhos da vida. Algumas carregam dores visíveis; outras escondem sofrimentos emocionais, familiares, financeiros ou espirituais. Também nós, em determinados momentos, podemos ser aquele viajante caído, necessitando da presença compassiva de alguém.
Diante dessas situações, podemos passar adiante ou nos aproximar. A verdadeira religiosidade não se revela apenas nas palavras, nas cerimônias ou no conhecimento das Escrituras, mas principalmente na maneira como tratamos aqueles que Deus coloca em nosso caminho.
Sob a visão espírita, a parábola reafirma que o progresso espiritual não depende de títulos religiosos ou de declarações de fé, mas da caridade vivida. No capítulo XV de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec utiliza justamente o ensinamento do Bom Samaritano para demonstrar que a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, virtudes opostas ao egoísmo e ao orgulho. Kardec recorda ainda o ensino do apóstolo Paulo de que, sem caridade, até mesmo a fé e os maiores conhecimentos perdem seu valor. A máxima “Fora da caridade não há salvação” não privilegia determinada crença: ela reconhece todos como irmãos e coloca ao alcance de cada pessoa a oportunidade de crescer espiritualmente por meio da benevolência, da indulgência, do perdão e do auxílio desinteressado. Assim, ser o bom samaritano de alguém é transformar o amor em serviço e compreender que cada encontro pode ser uma oportunidade concedida por Deus para repararmos o passado, vencermos o egoísmo e avançarmos no caminho da evolução.

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