Há dificuldades que chegam sem que possamos evitá-las. Outras, porém, são ampliadas pela maneira como reagimos, pelas comparações que alimentamos e pelas exigências que fazemos a nós mesmos e aos outros. Perceber essa diferença pode nos ajudar a viver com mais consciência e serenidade.
A Doutrina Espírita oferece uma reflexão esclarecedora sobre esse assunto em O Evangelho segundo o Espiritismo, especialmente nos ensinamentos sobre os tormentos voluntários e as provas voluntárias.
Compreender esses conceitos é um convite ao autoconhecimento, ao cuidado e à transformação.
As provas e o aprendizado do Espírito
Na perspectiva espírita, a existência corporal oferece oportunidades de desenvolvimento intelectual e moral. Os desafios podem exercitar a paciência, a perseverança, a solidariedade e o uso responsável da liberdade.
Em O Livro dos Espíritos, as questões 258 e 259 tratam da escolha do gênero de provas antes da reencarnação. Há, entretanto, uma distinção fundamental: isso não significa que todos os acontecimentos e sofrimentos tenham sido previamente escolhidos em seus detalhes. As circunstâncias e as decisões tomadas durante a vida também influenciam o caminho. Por isso, não cabe afirmar, diante da dor de alguém, que aquela pessoa “escolheu passar por isso”.
Essa compreensão deve nos tornar mais fraternos. Diante de quem sofre, nossa primeira tarefa é acolher e ajudar, sem presumir conhecer as causas espirituais de sua experiência.
Os tormentos que podemos deixar de alimentar
No capítulo V, item 23, de O Evangelho segundo o Espiritismo, a mensagem de Fénelon aborda os tormentos voluntários. O ensinamento destaca sofrimentos ligados à inveja, ao ciúme, à insatisfação e à busca de felicidade nas coisas passageiras. Também aponta a serenidade possível quando aprendemos a valorizar o que temos e deixamos de viver de aparências.
Trazendo essa reflexão para o cotidiano, podemos perguntar: quantas vezes transformamos a conquista de outra pessoa em motivo de tristeza? Quanto desgaste nasce da necessidade de receber aprovação ou de demonstrar uma felicidade que não estamos vivendo?
Reconhecer essas atitudes não exige que nos condenemos. Exige sinceridade para perceber o que podemos mudar.
A gratidão, nesse caminho, pode conviver com o desejo de melhorar de vida. Podemos trabalhar por novas conquistas sem fazer da comparação a medida do nosso valor.
É preciso sofrer mais para evoluir?
O item 26 do mesmo capítulo, “Provas voluntárias. O verdadeiro cilício”, esclarece que é legítimo procurar aliviar as próprias dificuldades. As provas também exercitam a inteligência na busca de soluções. O texto distingue a privação inútil do esforço assumido para beneficiar o próximo e orienta a preservar as forças necessárias ao trabalho na Terra.
À luz desse ensinamento, buscar ajuda, dividir responsabilidades e procurar saídas para uma situação difícil são atitudes compatíveis com a fé.
O valor espiritual de um esforço está em sua finalidade amorosa. Dedicar tempo a alguém, abrir mão de uma comodidade para ajudar ou reconhecer um erro podem exigir bastante de nós. São escolhas que encontram sentido no bem que realizam.
Uma semeadura diária
Como aplicação dessas reflexões, podemos reservar alguns minutos para examinar nossas atitudes:
- Estou enfrentando uma dificuldade concreta ou acrescentando a ela cobranças que posso rever?
- Tenho confundido perseverança com a obrigação de resolver tudo sozinho?
- Consigo reconhecer minhas conquistas sem compará-las às dos outros?
- Que gesto de cuidado posso oferecer hoje a mim e a alguém?
A prece e o estudo podem acompanhar esse exercício, ajudando-nos a transformar a reflexão em atitudes.
No Semear Para Colher, lembramos que a semeadura começa nas pequenas escolhas: uma resposta mais paciente, um pedido de ajuda, uma comparação abandonada, um gesto de solidariedade.
Nem sempre podemos escolher as circunstâncias que chegam. Podemos, aos poucos, aprender a cuidar melhor daquilo que cultivamos dentro de nós.
Que sementes estamos lançando hoje para que a paz encontre espaço em nossa vida?
Referências bibliográficas
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo V — “Bem-aventurados os aflitos”, item 23: “Os tormentos voluntários”. Mensagem de Fénelon, Lião, 1860. Texto consultado na Kardecpedia.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo V — “Bem-aventurados os aflitos”, item 26: “Provas voluntárias. O verdadeiro cilício”. Mensagem de Um anjo guardião, Paris, 1863. Texto consultado na Kardecpedia.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda, capítulo VI — “Da vida espírita”, seção “Escolha de provas”, questões 258 e 259. Texto consultado na Kardecpedia.
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